Eram também proprietários de muitas
terras de pão que se estendiam por aquelas encostas bem como os grandes prédios
da beira-mar da vila de Paço de Arcos, a par de casais dos arredores, o que
constituía uma assinalável fortuna.
D. Margarida do Carmo Almeida foi
bisavó paterna do Conde de S. Januário, tendo casado com outro lavrador da
região, de nome Manuel Correia (o Memorial Histórico de Oeiras refere
personagem com aquele nome, talvez o mesmo, que foi juiz da Câmara Municipal de
Oeiras em 24 de Maio de 1793), grande proprietário e produtor de azeite, que
tinha sempre à carga por sua conta navios na baía de Paço de Arcos, época em
que se verificou o apogeu da fortuna da família.
É tradição (SILVA, 1925, XXIII)
que, aquando da entrada de Junot em Lisboa, Manuel Correia, assistido da Mãe e
da Mulher, enterrou a sua fortuna numa cova de um armazém onde, tempos
volvidos, voltou para verificar que alguém o antecedera, o que lançou a família
em dificuldades. Do referido casamento houve dois filhos, Januário Correia de
Almeida e D. Jesuína Amália Correia, mãe do 1.º Conde de Paço de Arcos, Carlos
Eugénio Correia da Silva. O primeiro daqueles seus filhos, proprietário e
herdeiro da casa de seus pais, casou com D. Margarida Correia, foi pai de outro
Januário Correia de Almeida, (falecido em 1835), Tesoureiro-Geral da Armada,
Fidalgo da Casa Real, casado com D. Bárbara Luísa dos Santos Pinto (falecida em
1860).
Foi deste matrimónio que nasceu
Januário Correia de Almeida, o futuro Conde de S. Januário, que veio a casar a
26 de Novembro de 1885 com D. Maria Clementina de Lencastre Vasconcelos e Sousa
Leme Corte Real, em Braga-Montariol (Fig.4) nascida a 21 de Setembro de 1865,
bisneta de D. Teresa Francisca de Paula Pereira de Faria Saldanha e Lencastre,
12.ª Senhora das Alcáçovas (Fig. 5)…
Pouco tempo depois nasciam as suas
duas filhas, D. Maria Teresa Correia de Almeida, a 30 de Setembro de 1888,
representante do título de Condessa de S. Januário e D. Maria do Patrocínio
Correia de Almeida nascida a 20 de Dezembro de 1889, que teve uma filha
natural, com geração.
Um cartão de felicitações de Camilo
Castelo Branco, seu velho Amigo dos tempos em que São Januário exerceu os altos
cargos político-administrativos no Norte do País adiante referidos documenta um
episódio de felicidade, provavelmente de carácter familiar, na vida de S.
Januário (Fig. 7).
Pelo casamento de Januário Correia
de Almeida com D. Maria Clementina, uniu-se a casa do já então Conde de S.
Januário à Casa das Alcáçovas/Arrochela/Castelo de Paiva, senhores do Palácio
dos Arcos, encontrando-se por outro lado relacionada por parentesco próximo, com
a Casa dos Condes de Paço de Arcos (GONÇALVES, 1992, 1995).
A última Condessa de São Januário,
D. Fernanda Dores de Almeida, viúva de D. Tomás Maria Chatillon de Almeida,
prima do Autor, morreu sem geração…
…A Quinta dos Castelos, da segunda
metade do século XIX, assim chamada pela arquitectura da respectiva casa, vasta
residência campestre com ameias nas cimalhas, também chamada da Portela, por se
situar numa área de cumeada, constituindo portela da Quinta da Terrugem, mais
antiga, foi a residência em Paço de Arcos de Januário Correia de Almeida, que a
mandou edificar (Fig. 9).
Ali residiu longas temporadas
quando se ausentava da sua casa de Lisboa, onde vivia habitualmente, pois
morava na Rua de S. Francisco de Paula, actual Rua Presidente Arriaga, às Janelas
Verdes, depois de ter residido na Rua Oriental do Passeio Público, n.º 84 e na
Rua do Alecrim, n.º 62.
A sua pedra de armas, que encimava
o portão que dava acesso a área morada adjacente à casa da quinta da Portela,
encontra-se hoje resguardada numa dependência da quinta da Terrugem, pertença
da Câmara Municipal de Oeiras, onde foi fotografada, embora com mutilações
recentes. O brasão, esquartelado, apresenta no primeiro quartel as armas dos
Correias, no segundo as dos Almeidas, no terceiro as dos Pintos e no quarto, em
campo de sangue, uma espada de ouro (vontade de justiça), ladeada à direita por
uma e à esquerda por duas estrelas de prata (fulgor de nobreza).
Admite-se que esta pedra de armas
tenha sido outorgada aquando da sua elevação a Conde, uma vez que se desconhece
qualquer outra anterior possuindo esta a coroa de nove pontas, característica
daquele título de nobreza (Fig. 10).
Oeiras, concelho que o viu nascer e
morrer, não o esqueceu, conferindo a uma artéria em Paço de Arcos o seu nome: Avenida
Conde de São Januário, ainda em vida do homenageado a 19 de Julho de 1900 (Fig.
11), quando o mesmo estanciava na sua quinta da mesma localidade. A casa da
quinta onde residiu e veio a falecer foi, na década de 1980, completamente
demolida, dando lugar a uma grande urbanização, correspondendo ao Largo 7 de
Dezembro, data da criação da Freguesia de Paço de Arcos, em 1926 e à Rua José
Ferrão Castelo Branco, n.º 75. Um condomínio moderno de luxo possui o seu nome,
dando-lhe a necessária continuidade, aproveitando o prestígio que aquele ainda
confere, embora ignorando completamente o seu significado (Fig. 12).
3 - Um militar exemplar
Conforme consta do seu Processo
Individual, consultado em Lisboa no Arquivo Histórico Militar, de onde se
retiraram os elementos a seguir apresentados, Januário Correia de Almeida
alistou-se aos 17 anos como Voluntário no Batalhão de Caçadores, N.º 2, a 4 de
Novembro de 1842. Obteve licença para estudar na Escola Politécnica, onde se
encontrava matriculado antes da incorporação, depois de ter frequentado o Real
Colégio Militar. Na Informação semestral
referida ao 1 de Janeiro de 1843, é-lhe atribuído o seguinte juízo: “Este Aspirante veio a pouco tempo sentar
praça e está frequentando os estudos da Escola Polithecnica, hé bem educado, e
bastante vivo o que dá esperança que
pª. o foturo será bom Off.al.” No entanto, em todas as informações anuais
analisadas do Batalhão de Caçadores N.º 2 é referido como uma pessoa de
disposição violenta. A crer em tais informações, é de admitir que aquela
característica do seu carácter dos seus verdes anos tenha evoluído para o seu
modo de ser enérgico e afirmativo, que fez dele uma personalidade com
autoridade e carisma, características que lhe foram tão necessárias ao
desempenho das difíceis missões que assumiu ao longo de sua vida operosa e
útil.
Foi declarado Aspirante a Oficial
(por Ordem do Exército N.º 56 de 15 de Dezembro de 1842) e obteve Licença para
frequentar a Escola do Exército em 6 de Outubro de 1843.
Completou, a 23 de Junho de 1845, o
curso de estudos militares estabelecido pelo Art. 5.º do Decreto de 12 de
Janeiro de 1837 para a Cavalaria e Infantaria.
Foi promovido a Cabo a 15 de Agosto
de 1845, a 2.º Sargento a 30 de Outubro e a 1.º Sargento a 1 de Dezembro.
Obteve nova licença a 11 de Outubro
de 1845 para frequentar a Escola Politécnica.
Passou ao Regimento de Cavalaria
N.º 1 em 14 de Fevereiro de 1846.
Participou na subjugação da revolta
popular conhecida pelo nome de Maria da
Fonte, em 1846 integrado no Regimento de Lanceiros N.º 2 (Lisboa).
Promovido a Alferes de Cavalaria
por Decreto de 22 de Dezembro de 1846, foi colocado no Regimento de Cavalaria
N.º 1 (Ordem do Exército N.º 14, de 27 de Fevereiro de 1847). Em 9 de Outubro
de 1849 obteve de novo licença para estudar, desta vez na Faculdade de
Matemática da Universidade de Coimbra, onde obteve o grau de Bacharel em
Matemática a 20 de Junho de 1853.
Em 1852, durante as férias grandes,
serviu no Regimento de Cavalaria N.º 2, Lanceiros da Rainha.
Em 1853 obteve nova licença para
estudar na Escola do Exército, certamente depois de obtido em Coimbra o grau de
bacharel em Matemática, para ali realizar o Curso de Estado-Maior, ali
concluído a 25 de Julho de 1854.
Em 1854, durante as férias grandes,
foi efectivo no serviço do Regimento de Cavalaria N.º 2, na instrução prática
dos reconhecimentos militares a cargo da Escola do Exército, cujo desempenho
foi objecto de louvor.
Como Tenente de Cavalaria, já com o
curso de Estado-Maior, foi chamado a exercer funções de Engenheiro Civil e
Militar na Província de Cabo Verde pelo Ministério da Marinha e do Ultramar
(por Decreto de 13 de Novembro de 1857), sendo posteriormente promovido a
Capitão do Estado-Maior do Exército (por Decreto de 2 de Dezembro de 1857).
Por Decreto de 22 de Dezembro de
1857 foi designado Director dos Serviços de Obras Públicas da Província de Cabo
Verde, tendo sido louvado pela forma como ali dirigiu e executou várias obras
públicas, na qualidade de Engenheiro Militar e Civil (Portaria do Ministério da
Marinha e Ultramar de 12 de Novembro de 1858).
Durante a sua permanência na
Província de Cabo Verde, exerceu por algum tempo, em 1858, o Governo da Praça
de Cacheu, na Guiné Portuguesa e provisoriamente o de Governador-Geral da
referida Província entre 8 de Agosto de 1860 e 1 de Abril de 1861.
Em 25 de Julho de 1861, regressado
à Metrópole, passou a servir no Ministério das Obras Públicas, exercendo as
funções de Director das Obras Públicas nos Distritos de Braga e de Viana do
Castelo, reunidos numa só direcção (30 de Setembro de 1861).
Transitou para o Ministério do
Reino a 17 de Janeiro de 1862, a fim de exercer o cargo de Governador Civil do
Distrito do Funchal e, mais tarde, o de Comissário Régio no Distrito de Vila
Real (1864).
Sendo Major, foi nomeado
Governador-Geral da Índia por Carta Régia de 9 de Fevereiro de 1870. Tal
nomeação era perfeitamente justificada em virtude de ter adquirido assinalável
prática na Administração Pública nos cargos político-administrativos
anteriormente desempenhados, a que se juntou o de Vogal da Comissão nomeada
para propor ao Governo o regulamento geral de contabilidade pública central do
Ministro das Obras Públicas e os regulamentos respectivos.
Foram-lhe, pouco depois, concedidas
as honras de Ajudante-de-Campo de Sua Majestade El-Rei (por Decreto de 12 de
Maio de 1871); os seus retratos com farda posteriores a esta data registam tal
distinção, através das agulhetas neles representadas.
Em 1872 assumiu o cargo de
Governador-Geral de Macau e Timor, cargo que exerceu até 7 de Dezembro de 1874,
tendo entretanto sido nomeado Ministro Plenipotenciário na China, Japão e Sião,
onde exerceu notáveis actividades adiante descritas.
Findas aquelas Comissões,
apresentou-se no Ministério da Guerra, por Ordem do Exército N.º 26. Foi
colocado no quadro do Corpo de Estado-Maior do Exército, por Decreto de 21 de
Janeiro de 1876, e posteriormente nomeado pelo Ministério dos Negócios
Estrangeiros para ser Enviado Extraordinário e Ministro Plenipotenciário junto
dos Governos das repúblicas sul-americanas (Oficio do Ministério da Guerra de
29 de Maio de 1878), missão que merecerá desenvolvida análise na presente obra.
Foi promovido a Tenente-Coronel do
Corpo do Estado-Maior do Exército por Decreto de 3 de Setembro de 1879, quando
ainda se encontrava na América do Sul.
Apresentou-se no Ministério da
Guerra em 17 de Março de 1880 por ter cessado a Comissão em que se achava no
Ministério dos Negócios Estrangeiros (Ordem do Exército, N.º 7 de 3 de Abril).
Foi nomeado Coronel do Corpo do
Estado-Maior, por Decreto de 11 de Junho de 1884.
Em 1885 foi nomeado Chefe do
Estado-Maior da 4.ª Divisão Militar, por Decreto de 9 de Setembro.
Em 1893 assumiu a direcção interina
da Escola do Exército, por Decreto de 2 de Março de 1893, e a de Comandante
interino do Corpo do Estado-Maior do Exército, por Decreto de 12 de Maio.
Foi promovido a General de Brigada
por Decreto de 30 de Junho de 1893 e a General de Divisão por Decreto de 13 de
Maio de 1896.
Naquele mesmo ano de 1893, foi
nomeado Comandante da Escola do Exército (Ordem do Exército, N.º 25). Esta
nomeação, depois de ter assegurado por pouco tempo a direcção interina daquele
estabelecimento de ensino militar, era justificada pelo profundo conhecimento
que S. Januário tinha já daquele estabelecimento de ensino, em virtude de ter
sido Vogal da Comissão encarregada de estudar e propor plano de reorganização
da Escola do Exército, conforme a Ordem do Exército N.º 11, de 16 de Abril de
1877. Em virtude dos resultados alcançados, foi “Louvado pelo zelo e
inteligência com que se desempenhou do serviço que lhe foi concedido” (Ordem do
Exército N.º 11, de 8 de Junho de 1879), o que acrescia a favor da sua
autoridade aquando da tomada de posse do comando daquela Escola, anos volvidos.
No salão nobre daquele
estabelecimento de ensino militar encontra-se exposto o seu retrato a óleo
(Fig. 13). Prova do prestígio que granjeou entre os alunos e professores daquele
estabelecimento de ensino militar é o discurso proferido por um dos lentes
(COSTA, 1896) aquando da abertura do ano lectivo de 1896/1897, em bonita
encadernação feita propositadamente para lhe ser oferecida (Fig. 14).


Ao ser nomeado Comandante da 1.ª
Divisão Militar (pela Ordem do Exército N.º 6 de 1897), foi exonerado de
Comandante da Escola do Exército, a actual Academia Militar.
Por fim, já com mais de 70 anos,
foi exonerado do cargo de Presidente da Comissão encarregada de estudar e
propor as providências mais adequadas à reorganização das forças ultramarinas
(Decreto de 7 de Junho de 1898), tendo sido louvado pela forma como dirigiu os
trabalhos daquela comissão, passando à reserva (ou, como então se dizia, ao
exército auxiliar). O garbo militar, apesar de contar já então mais de 70 anos
e se encontrar doente mantinha-se inalterado, como se evidencia em foto tirada
na sua quinta da Portela, em Abril de 1900, com uniforme de General de Divisão
e todas as insígnias das suas muitas condecorações (Fig. 15).

A participação do Conde de São
Januário, em Lisboa na recepção a Mouzinho de Albuquerque, a 14 de Dezembro de
1897, ladeando o herói africano (Fig. 16), dando a direita ao homenageado,
aquando do seu desembarque no Cais do Sodré, na qualidade de Comandante da 1.ª
Divisão Militar, foi o corolário da sua vida pública, que desde sempre se
confundiu com a vida militar, em prol do serviço do País e da defesa dos
interesses nacionais.
Por esta breve síntese se pode
aquilatar a notável carreira de Januário Correia de Almeida e os
extraordinários serviços prestados ao país, como militar, engenheiro, diplomata
e administrador. Estes e outros atributos serão evidenciados nos capítulos
seguintes.
4 - O despertar para a causa pública: a missão no arquipélago de Cabo Verde
(1857-1861)
A preparação técnico-científica de
S. Januário como engenheiro militar cedo foi posta ao serviço do País, fazendo
parte da plêiade de militares que no século XIX abriram a Portugal os caminhos
da modernidade.
Devem-se-lhe inúmeras
infra-estruturas em diversas ilhas do arquipélago de Cabo Verde, para onde foi
despachado a 22 de Dezembro de 1857 Director dos Serviços de Obras Públicas do
Distrito de Cabo Verde, tanto a nível das estradas de macadame que mandou
construir, em substituição das picadas quase intransitáveis, como em
equipamentos portuários. É o caso do belo edifício da Alfândega do porto do
Mindelo, construído entre 1858 e 1860, de excelente qualidade arquitectónica,
com alvenarias de calcários cuidadosamente provenientes da Metrópole,
construção que ainda hoje mantém toda a sua beleza (Fig. 17).

Com a sua nomeação interina como
Governador de Cabo Verde, cargo que exerceu entre 8 de Agosto de 1860 e 1 de
Abril de 1861 em acumulação com o de Director das Obras Públicas do arquipélago
teve o ensejo de pôr em prática um ambicioso plano de melhoramentos, que
envolveu a construção, na Cidade da Praia, de importantes estruturas portuárias
recorrendo a um imposto de 3% sobre o valor de todas as mercadorias entradas e
saídas. Teve ensejo de publicar folheto (ALMEIDA, 1860) (Fig. 18), onde
descreveu o projecto por si elaborado e cuja concretização lhe coube também
assegurar.
………a invulgar energia e competência
técnica e administrativa demonstradas, auguravam-lhe mais altos cargos, e
abriram-lhe as portas da Política que viria a abraçar fugazmente, através do
exercício de diversos cargos políticos, adiante caracterizados.
Tendo percorrido todas as ilhas do
arquipélago, realizou também o reconhecimento do litoral da Guiné, realizando
reparações, entre 1858 e 1860 na fortaleza de São José de Amura. Data dessa
época o livro “Um mez na Guiné” (ALMEIDA, 1859), interessantíssimo relato de viagens
recheado de observações recolhidas em primeira mão, o qual foi publicado em
Lisboa, para cuja redacção deve ter aproveitado os curtos tempos livres no
arquipélago (Fig. 19). Pelo seu inegável interesse documental, geográfico e
sociológico, considerou-se importante apresentar um resumo desenvolvido das 68
páginas que integram a versão original que, por estranho que pareça, nunca
conheceu reimpressão.
…………………….……no final da obra, que é
muito informativa e constitui um retrato quase desconhecido, vívido e rigoroso
da Guiné portuguesa de meados dos século XIX, Januário Correia de Almeida
procurou indicar algumas medidas que o Governo deveria tomar para o progresso
da Colónia. As considerações apresentadas evidenciam, apesar do curto mês em
que permaneceu na Guiné, a sua invulgar capacidade para o diagnóstico das
situações e a subsequente lucidez evidenciada pelas propostas de soluções a
adoptar, característica do seu carácter que, muito mais tarde, teve
oportunidade de desenvolver em proveito e defesa dos interesses do País.
Estas raras qualidades, já tão
evidentes aquando da sua estada em Cabo Verde e na Guiné, com pouco mais de 30
anos, auguravam-lhe vida pública produtiva e auspiciosa.
5 - Uma afirmação de autoridade como Governador-Geral da Índia Portuguesa
A atenção particular às condições
de vida das populações, a sua sensibilidade para a causa pública e a sua
competência técnica e militar já claramente demonstradas nas missões de que
fora incumbido anteriormente, explicam que tenha sido nomeado Governador-Geral
da Índia Portuguesa por carta régia de 9 de Fevereiro de 1870, tendo chegado a
Goa a 4 de Maio do mesmo ano e tomado posse a 7 de Maio de 1870. Assegurou
aquele cargo até finais de 1871, já depois de debelada grave revolta militar
que será adiante pormenorizadamente tratada. Data dessa época a litografia de
corpo inteiro (Fig. 20), que se soma ao retrato pintado sobre a tábua existente
na sala dos Governadores, no Palácio do Governo, em Nova-Goa (Fig. 21), já
reproduzida anteriormente (Sá, 1999).


Parece difícil ter feito mais em
menos tempo, desde a revolta de Volvoy, que estalou em 1870, movimento
insurreccional provocado pelo descontentamento da aplicação de medidas
reformistas do exército local, com a agravante da existência preocupante de um
generalizado estado de insegurança devido à presença de salteadores organizados
que então infestavam aqueles domínios.
A revolta de Volvoy foi resolvida à
custa de amplas concessões que o seu antecessor no cargo de Governador-Geral
entendeu que não podiam deixar de ser feitas. Mas as dificuldades persistiram.
Enquanto Governador-Geral, não
deixou por um só momento de se dedicar totalmente àquela preocupante situação,
a ponto de ter mandado imprimir em Bombaim opúsculo da mais alta importância
para a compreensão da revolta que viria a estalar em 1871 e da forma como a
conseguiu debelar (S. JANUÁRIO, 1872) (Fig. 22); ali se publicam também
documentos oficiais que então emitiu………..
………..De tal forma foi a revolta
subjugada, com prudência e determinação, que a força expedicionária enviada da
Metrópole, sob o comando do Infante D. Augusto já não foi necessária, tal como
também não foi necessária a força inglesa que foi posta à sua disposição, e que
ele, aliás, taxativamente recusou publicamente (por texto publicado no Times of Índia), pelo precedente que tal
criaria para a soberania portuguesa.
Como administrador, deve-se-lhe a
reforma da moeda em circulação, fazendo cunhar nova moeda, bem como a
introdução do selo postal, por portaria de 12 de Agosto de 1871, sendo clara a
sua intenção de promover o progresso do território sob administração
portuguesa, tal como tinha feito em Cabo Verde, neste caso tomando como exemplo
a Índia Inglesa de então.
6 - Prudência e firmeza como Governador-Geral de Macau e Timor
Na sequência imediata da
bem-sucedida missão como Governador-Geral da Índia, o já então Visconde de São
Januário é nomeado Governador-Geral de Macau e Timor, cargo que desempenhou
entre 23 de Março de 1872 e 7 de Dezembro de 1874. O seu retrato figura no
Palácio do Governo, a par dos de outros Governadores de Macau (Fig. 23).
Mais uma vez, vieram ao de cima as
suas invulgares qualidades militares e diplomáticas, como organizador e
administrador: dominou a actividade de piratas chineses que assolavam
recorrentemente a região, mesmo na imediata vizinhança do porto da cidade, e
conseguiu dos chineses o reconhecimento dos direitos dos Portugueses sobre a
península de Hai-Nan, em documento datado de 1874 (S. JANUÁRIO, 1875). Este
documento, aquando da implantação da República, foi subtraído do Paço de Vila
Viçosa, e depois adquirido por um comerciante do Porto, que o ofereceu ao então
Presidente do Conselho, Doutor Oliveira Salazar, desconhecendo-se actualmente o
seu paradeiro (Fig. 24).

Embora detenha evidente interesse
por constituir uma prova documental do reconhecimento dos direitos territoriais
dos portugueses naquelas paragens tratar-se-á mais de uma manifestação de
simpatia e de agradecimento do que propriamente de um tratado, com
reconhecimento formal daquela cedência. Já no respeitante à delimitação da
fronteira marítima entre a China e Macau, as conversações efectuadas com o
enviado chinês deram origem a um compromisso verbal, estabelecido em 1872, o
qual, no entender de S. Januário, não se justificaria ficar por escrito (PINTO,
2013, p. 255).
Com base nos dois relatórios que
fez publicar e que serão adiante referidos em pormenor, verifica-se que, nos
pouco mais de dois anos e meio que esteve à frente do governo de Macau tomou a
iniciativa da concretização de assinalável número de melhoramentos públicos.
Promoveu a construção do Quartel e do Hospital militar, além de equipamentos
portuários, bem como a dotação dos fortes com peças de artilharia de grande
calibre, salvando o território de um ataque de surpresa. A caracterização destas
duas poderosas armas será abaixo apresentada, a partir do próprio Relatório de
S. Januário.
……..O seu nome ficou indelevelmente
associado ao território, pelo respeito que incutia em todos, mesmo nos seus
poderosos vizinhos, como expressivamente se regista no monumental Hospital
militar que fundou (Fig. 25), inaugurado a 6 de Janeiro de 1874 entretanto
substituído por outro grande edifício inaugurado em 1894, a que se sucedeu um
terceiro hospital inaugurado em Março de 1974.
A construção desta grande unidade
hospitalar justificou uma emissão filatélica com dois selos, um reproduzindo o
Visconde em grande uniforme, à época em que era Governador, inspirado na
litografia anteriormente reproduzida de 1870, apresentando o outro selo, o
próprio hospital (Fig. 26). A manutenção do seu nome, mesmo depois de feita a
passagem da administração do território para a China, é expressiva do prestígio
que o seu nome granjeou entre a população local, ainda hoje reconhecido e
respeitado…………
7 – Uma missão de alto risco como Ministro Plenipotenciário no Reino de Sião
A fase em que desempenhou as
funções de Governador de Macau coincidiu com o exercício das funções de
Ministro Plenipotenciário de Portugal junto das Cortes da China, Japão e Sião
(reino que abarcou territórios da actual Tailândia e do Cambodja), correspondeu
a uma das mais notáveis da carreira do então Visconde de São Januário.
Importa referir que S. Januário
terá visitado o reino de Sião pela primeira vez em 1873. Tal visita ter-se-á de
facto efectuado em Novembro daquele ano, depois de obtida a respectiva
autorização.
Mais tarde, já no seu périplo de
regresso a Portugal, em inícios de 1875, finda a sua missão como Governador de
Macau em finais de 1874, voltou de novo para a apresentação de credenciais. A 9
de Dezembro desse ano remete carta ao Ministro e Secretário de Estado dos
Negócios Estrangeiros, com timbre da legação de Portugal na China, japão e Sião
(Arquivo Histórico Diplomático, Ministério dos Negócios Estrangeiros, documento
640, caixa 950), participando que terá de se ausentar de Macau, em missão do
seu cargo de Enviado Extraordinário e Ministro Plenipotenciário de Sua
Majestade Fidelíssima visitando a corte de Bangkok e seguindo depois para o
Reino. Aquando da sua chegada, encontrou o país mergulhado numa profunda crise
dinástica. Monsenhor Manuel Teixeira dá uma explicação detalhada do ambiente de
grande tensão que ali se vivia aquando da segunda visita de S. Januário
(TEIXEIRA, 1976). Foi então protagonista de decisiva intervenção na luta que
então estava a ponto de se tornar guerra civil: a coroa do reino era disputada
pelo monarca legítimo e o ex-regente, que anteriormente governara o reino na
menoridade do monarca e a quem os representantes diplomáticos das potências
ocidentais tendiam a conceder o seu apoio. Foi então que São Januário
interveio, convencendo estes últimos de que tal estratégia constituía um erro,
por corresponder ao caminho mais rápido para a perda de influência das ditas
potências na região.
O diferendo foi resolvido a favor
do Rei legítimo, Rama V Chulalongkon, quinto soberano da Dinastia Chakri, que
reinou de 1868, ou 1873, contando os cinco anos de regência do seu opositor
afastado em 1874/1875, a 1910. Em agradecimento pelo notável serviço prestado,
o Rei confirmado no Trono agraciou o Português com a Grã-Cruz da Ordem da Coroa
de Sião, a 14 de Janeiro de 1875, em diploma iluminado, sobre pergaminho, por
ele mesmo assinado (Fig. 28).
O reconhecimento do Rei foi ao
ponto de escrever uma carta pessoal ao Visconde de São Januário, em Inglês, que
constituía a língua oficial para relações diplomáticas, num esforço para
modernização do País introduzido anteriormente, agradecendo-lhe a intervenção e
convidando o Rei de Portugal a visitar o seu Reino, datada de 1 de Abril de
1875 do palácio Real de Bangkok, a qual pelo seu interesse se reproduz (Fig. 29)…………..
………A missão de Januário Correia de
Almeida no Sudeste Asiático teve também um cunho científico, resultante do seu
interesse pela Arqueologia, mais tarde plenamente reafirmado aquando da sua
Missão às Repúblicas sul-americanas. No boletim da Associação dos Arqueólogos
Portugueses, da qual já então era sócio, relativo a 1876, iniciou a publicação
de um extenso artigo sobre a Arquitectura Khmer, que se prolongou por 1877 (S.
JANUÁRIO, 1876, 1877), com base na visita que fez a Angkor, cujos templos
reproduz (Fig. 30).
Neste artigo analisa detalhadamente
os materiais de construção utilizados, descrevendo as técnicas construtivas
seguidas na edificação dos muros, torres, calçadas, colunas, abóbadas, portas,
tanques, pontes e terraços, bem como as suas características estruturais e
arquitectónicas, incluindo a disposição geral dos edifícios e a respectiva
descrição.
………..Em suma, a valia das
investigações desenvolvidas no antigo Reino de Sião, ao visitar e caracterizar
os notáveis templos ali existentes, cujos resultados publicou depois em
Portugal (S. JANUÁRIO, 1876/1877) revelaram-se também na importante comunicação
que apresentou à Société Académique Indo-Chinoise, da qual for eleito Sócio
Correspondente em 1880 (S. JANUÁRIO, 1883), cabendo o elogio do novo Académico
a Eugène Gilbert (GILBERT, 1881).
8 – No Império do Sol Nascente
Se a sua acção junto das Cortes da
China e do Sião foi notável, também junto da Corte do Japão aquela se fez
sentir, com a reorganização do serviço consular português, tendo-lhe valido a
outorga da Grã-Cruz da Ordem do Sol Nascente, estabelecida pelo Império
nipónico nesse mesmo ano de 1875. Na cidade de Nagasaqui, impressionou-se com
uma ponte de cantaria de blocos graníticos, com dois arcos de volta inteira
apoiados num pegão central, pelas semelhanças que tinha com tantas pontes da
Metrópole, especialmente comuns na região norte, justamente designada pelos
locais como “Ponte dos Portugueses”, pertencente à segunda metade do século
XVI. Ao publicar sobre ela uma breve notícia, com minuciosa descrição, no
Boletim da Associação dos Arqueólogos Portugueses, declarou: “É indefinível o
efeito, que, em nossa visita a Nagasaki, em mim e em meus companheiros,
produziu a vista d’esta singela construção! (…). Era a ponte da villa dos Arcos
de Val de Vez, cercada dos ligeiros chalets
japonezes, e da extravagante architectura das capellas Kamis e dos pagodes
budhistas!” (S. JANUÁRIO, 1877, p. 50).
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Aquando do regresso do Oriente,
acompanhou-o um conjunto de peças orientais que expôs, em 1875, na sua casa da
Rua do Alecrim. Procurava, assim, chamar a atenção da sociedade lisboeta do seu
tempo para múltiplas realidades culturais que esta desconhecia quase
totalmente, apesar das centenas de anos de contactos com culturas do Extremo-Oriente
(Sudeste Asiático, China e Japão). Esta exposição deu brado na sociedade lisboeta
de então, tendo sido anunciada no “Diário de Notícias” de 29 de Novembro de
1875. De facto, quarenta anos depois, o mesmo jornal, na secção de efemérides
“Há quarenta anos”, publicava a seguinte notícia: “Visconde de S. Januário –
São muito curiosos e de subido merecimento artístico os objectos da China,
Japão e Sião que o Visconde de S. Januário trouxe daquelas regiões. Em casa do
illustre e antigo governador de Macau podem admirar-se raros e belos esmaltes
em cobre, vasos de bronze admiravelmente cinzelados, finíssimos xarões,
porcelanas de subido valor, filigranas de ouro, prata e marfim, e infinidade de
objectos muito apreciados na Europa. As salas estão elegantíssimas, todos os
objectos dispostos com arte e gosto, alguns dos quais seriam dignos de figurar
no mais selecto museu. Teem sido muito visitadas por cavalheiros e damas as
salas do sr. Visconde de S. Januário, na sua residência na rua do Alecrim.”
Do vasto acervo trazido, muitos
lotes conservou pessoalmente, passando de geração em geração da sua Família até
à actualidade, incluindo objectos pessoais, como uma colecção de facas de
marfim para papel, de diversas origens: China, Índia e Sudeste asiático (Fig.
31).
Dois anos volvidos, a maioria
daquele manancial foi leiloado em Lisboa, encontrando-se os lotes devidamente
descritos em catálogo então impresso (S. JANUÁRIO & MESNIER, 1877) (Fig.
32).
O Catálogo inventariou 1809 peças
dadas como provenientes do Japão, China, India, Ceilão, Coreia, Sião e Egipto,
num total de 1809 peças de madeira, couro, laca dourada, pintura chinesas,
estatuetas, vasos diversos, jarras de porcelana, dentes de elefante e várias
peças de marfim.
Esta realidade corporiza atitude
que se compreende, porque os militares em missão no Oriente tinham dificuldade
em trazer divisas, vendo-se obrigados, antes do regresso, a comprar bens de
vária ordem, para capitalizarem as economias reunidas.
Outras peças, cerca de 650, foram
colocadas em depósito no Museu Colonial de Lisboa, então instalado na Rua do
Arsenal, em 1878, nas vésperas da sua partida para a América do Sul."
9 – O 1.º Presidente da Sociedade de Geografia de Lisboa (a publicar em breve)
10 – Viajante, diplomata, arqueólogo e naturalista: a missão como Ministro
Plenipotenciário às repúblicas sul-americanas em 1878/1879
11 – Colaboração com a Academia das Ciências de Lisboa
12 – Actuação na Associação dos Arqueólogos Portugueses
13 – Intervenção política
14 – Servidor da cultura e defensor da cidadania
15 – O fim de uma vida dedicada ao serviço do País