sábado, 25 de abril de 2020

Uma pequena reflexão sobre a revolução de Abril para pôr alguns pontos no is (25Abril74)

Depois de mais uma malfadada celebração da revolução de Abril, não posso deixar passar este mês sem um desabafo sobre esta matéria. Um desabafo que me sai do coração e que não é mais do que um testemunho de revolta desprovido de qualquer intenção que não seja a partilha de verdade e não de uma lenda épica que parece começar a eternizar-se.

Eu vivi a revolução de Abril em Angola, por isso algo distante dos acontecimentos na metrópole. Estava cumprindo uma comissão de serviço como capitão miliciano, no comando duma companhia regional (cerca de 95% eram angolanos).

Fiz o curso de capitão miliciano, em Mafra. Após finalizar o curso com sucesso fui enviado para Angola para cumprir uma comissão de serviço (Jan/73 a Jan/75).

A missão principal da minha companhia era de dar protecção a uma Fazenda de produção de café. Também dávamos apoio de vária ordem, sobretudo paramédico, às populações das proximidades (sanzalas). A minha tropa tinha vários soldados familiares de militares da FNLA e MPLA. Praticamente já não havia guerra em Angola.

Eu tinha informações de que o “inimigo” nunca faria mal à nossa companhia, pelo contrário, muito apreciavam o nosso trabalho humanitário junto das populações nativas locais.

Naturalmente que na minha convivência com alguns oficiais do quadro permanente, nomeadamente capitães, notava, na maior parte das vezes, que havia discordância, insatisfação e inveja em relação à nossa situação de capitães milicianos formados em menos tempo do que os oficiais do Quadro Permanente. Eramos apelidados depreciativamente de “maçaricos”.

Como consequência, a insatisfação que daí advinha, e não só, por parte de alguns militares do quadro permanente, deu origem a reuniões clandestinas destes oficiais para debater e refutar, de alguma maneira, a situação que se vivia e que, no seu entender, não lhes era favorável. Eram poucos os capitães com coragem de ir para as frentes de combate e o governo terá aprovado uma lei que com dois anos de Academia Militar os milicianos eram promovidos a Capitães do Quadro, com data promoção que, nalguns casos, ultrapassava pessoal com o curso completo. Os oficiais das FA não queriam que os oficiais milicianos pudessem passar ao Quadro Permanente sem frequentarem a Academia Militar durante o mesmo número de anos e queriam mais e melhor remuneração.

Começa, assim, a formar-se uma corporação interna nas Forças Armadas, habilmente aproveitada pela URSS através da sua filial Portuguesa, o PCP. Tudo isto foi também aproveitado por muitos oficiais milicianos ligados ao PCP, que nos QGs terão ajudado a promover a revolução.

Torna-se, portanto, evidente que, inicialmente, os verdadeiros motivos dos capitães para a sua revolução (insurreição, mais propriamente dita, a que os comunistas, incitadores e oportunistas, chamaram de revolução) se fundamentavam em invejas e interesses pessoais que violavam o que deveria ser o espírito de uma genuína revolução para defesa da Nação e da liberdade democrática.

Assim, o 25 de Abril, iniciado por um grupo de capitães insurrectos e, talvez, sem completa noção da consequência dos seus actos, movidos por interesses da sua classe, suportados e impulsionados pelo maléfico, insidioso, desleal e traiçoeiro PC, foi feito, ao fim e ao cabo, para entregar Angola à URSS e seus aliados, tudo em consonância com os EUA. Por isso o MFA se apoiou no único partido organizado, o PC, e daí as cedências que lhes fez posteriormente. Era uma maçada, a guerra estava ganha em 1973 (Angola) e só de uma maneira ínvia se poderiam satisfazer as comissões da "entrega". Daí o “golpe dos capitães” de Abril hipocritamente elaborado com a máscara da liberdade.

Conclusão: Árvore que nasce podre não pode dar bons frutos.

Por tudo isto e, principalmente, pelos milhares de Portugueses que foram deixados ao abandono e chacinados nas colónias (já para não falar dos cerca de 2 milhões de africanos que vieram a morrer nas guerras que se seguiram), o 25 de Abril, traz-me sempre uma amargura muito grande.

Lembrar-me que os terroristas da FNLA assaltavam as fazendas dos brancos assassinando-os barbaramente, decepando-lhes as cabeças, e, depois, espetavam-nas em paus cantando e dançando à sua volta.

Lembrar-me que traidores, que são muitos, como um tal “alegre” que foi membro do movimento nacionalista angolano mais sanguinário de todos (FNLA de Holden Roberto) e que foi no peito deste terrorista que o Presidente de todos os Portugueses colocou, há tempos, uma medalha, dá-me náuseas.

Uma revolução, quando triunfa, serve para mudar as mentalidades, corrigir o que até então estava errado e melhorar o que seguia bem. Ora, em 74 e nos anos que se seguiram ao golpe dos capitães, o que assistimos foi a um assalto às instituições do Estado Português e à propriedade privada — coisa própria de insurreições comunistas —, assalto esse que se agudizou com a chegada dos fundos comunitários provenientes da UE, o que deu origem a que Portugal atingisse a indesejável 1ª posição dos países mais corruptos da dita União.

Moral da história: os interesses do povo de Portugal, do povo trabalhador, foram descurados, não é com salários mínimos de miséria que se alcança a tão propalada equidade, pois cada vez há ricos a ficarem mais ricos e pobres a ficarem ainda com menos. A manutenção é uma desgraça, como se viu em Pedrógão e arredores, no caso das florestas, nos quartéis, como pudemos ver em Tancos, nas estradas, como se comprovou com o aluimento da Pedreira de Borba, enquanto a corrupção já entrou de tal modo nos hábitos dos governantes, que ninguém reage ao facto de terem "desaparecido" 67 milhões de euros da recolha feita para ajudar as famílias das muitas dezenas de vítimas mortais dos incêndios e para a reconstrução das casas ardidas, animais, equipamentos agrícolas de toda a espécie, ou de cinco magistrados estarem acusados de terem aceitado montantes elevados de dinheiro para fornecerem informações aos prevaricadores ou mesmo para os absolverem.

Tudo isto o Covid-19 esbateu, menos a gravidade desses comportamentos. Mas por que aconteceu tudo isto? Porque uma democracia não se constrói com o PC lá metido, por ser totalitário, ou seja, contrário ao espírito de um regime veramente democrático, e com partidos da extrema-esquerda que, depois de terem sido postos em sentido pelo coronel Jaime Neves e os seus Comandos em Novembro de 75 (mais tarde veio a ser promovido a major-general com base no seu papel durante a defesa contra o Golpe de 25 de Novembro de 1975 que colocou um fim ao Processo Revolucionário em Curso, "tendo em conta o papel muito relevante que Jaime Neves teve para evitar que Portugal caísse numa ditadura comunista", além de "garantir que Portugal seguia no sentido do pluralismo, da democracia e da liberdade de expressão"), regressaram, de mansinho, 24 anos mais tarde, sob a capa de um "Bloco de Esquerda", que mais não pretende do que instaurar uma ditadura do proletariado, coisa que naquela data se preparava para levar a cabo.

E pronto, falar do 25/4 é muito inconsequente porque os traidores que o levaram a cabo terminaram com a independência de uma das nações mais antigas da Europa e a união desta pôs-lhe um termo na soberania, como se tem abundantemente comprovado.

Isto parece-me suficiente para se ficar com uma ideia do que se passa no panorama político do nosso país.

Posto isto, entendo que é de uma hipocrisia desmedida e patética continuar-se a celebrar a revolução de Abril, sobretudo do modo como tem sido feito.

Tenho dito.

CCA

(25/04/2020)




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sexta-feira, 3 de abril de 2020

Eanes, o mais velho


A vida não acaba na escola, num quartel, em qualquer palácio, mesmo que em Belém. Um homem vai pela vida e pode tornar-se, produto de experiências várias, numa referência colectiva.


1.   Em África, no continente onde a Humanidade foi detectada em primeiro lugar, o papel do mais velho ainda hoje é especialmente valorizado. Pese a globalização e as alterações por ela introduzidas no seio das comunidades tradicionais, a idade continua a funcionar como atestado de conhecimento e sabedoria. As famílias têm o seu mais velho. Os países também. E é de lá que nos chega a frase: “um velho que morre é uma biblioteca que arde”.

 

Na Europa, imersa no labirinto do hedonismo, esse papel foi sendo perdido. É bastante mais sonorizado o estéril soundbyte de um protagonista da moda, seja qual for o sector de actividade, do que a reflexão produzida por uma experiência de vida. São poucos os homens mais velhos que escapam a esta lei. Talvez por isso tenha sido especialmente reconfortante a curta entrevista de Ramalho Eanes, na noite da passada quarta-feira, na RTP, concedida à jornalista Fátima Campos Ferreira.

 

2.   O ex-Presidente da República não nos trouxe nenhuma informação relevante. Não nos deu qualquer novidade económica ou financeira. Não mostrou possuir o segredo para a vacina do coronavírus. E, no entanto, aqueles 30 minutos foram extraordinários, pelo humanismo, pela sensibilidade, pela sabedoria, pela capacidade de falar em amor e sofrimento a propósito da liderança, social e política, de trazer para a primeira linha a defesa da dignidade do homem e da mudança que é necessária para construir um novo mundo, mais solidário. Era um exercício difícil. Poderia redundar numa peça piegas. Acabou num fantástico momento de televisão, útil para o país, onde o sentimento aflorou mas não abafou a lição.

 

3.   Convém lembrar aos mais novos que Ramalho Eanes nem sempre foi este ser humano que agora podemos escutar. E isso acrescenta valor ao percurso do homem.


O General que recusou ser Marechal; que prescindiu de um milhão e 300 mil euros de retroactivos de uma reforma a que tinha direito; que presidiu a Portugal durante dez anos (entre 1976 e 1986); que a História tornou no militar mais importante do golpe de Estado de 25 de Abril de 1974, fundador da Democracia; que recebeu condecorações de mais 20 países; que inspirou e dirigiu um partido (o PRD) sobre uma defesa da ética que obviamente esbarrou na fragilidade humana, e por isso se extinguiu; que levanta a voz contra a corrupção porque não admite que se mate assim um ideal – esse Homem nem sempre foi capaz de comunicar desta forma.

 

Também aí esta entrevista revela um percurso. O militar tímido, corajoso, capaz de “andar à estalada” na rua numa campanha política e que pedia conselhos para enfrentar as conversas de Estado nas cerimónias solenes da sua mais mediática missão, deu origem a este Ramalho Eanes que Portugal pode e deve ouvir com atenção, porque ele é capaz de ensinar humanidade, de transmitir esperança, de comover pela dignidade, pelo sentido que dá ao existir, de nos fazer pensar sem vergonha dos sentimentos.

 

4.   A vida não acaba na escola, num quartel, em qualquer palácio, mesmo que em Belém. Um homem vai por essa vida e pode tornar-se, produto de experiências várias, numa referência colectiva, numa pessoa ainda melhor. Ramalho Eanes concluiu um doutoramento, em Navarra, já passava dos 70. Hoje tem 85. E dá-nos lições. Venham outras.

 

João Marcelino

03/Abril/2020




 

 

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