Depois de mais
uma malfadada celebração da revolução de Abril, não posso deixar passar este
mês sem um desabafo sobre esta matéria. Um desabafo que me sai do coração e que
não é mais do que um testemunho de revolta desprovido de qualquer intenção que
não seja a partilha de verdade e não de uma lenda épica que parece começar a
eternizar-se.
Eu vivi a
revolução de Abril em Angola, por isso algo distante dos acontecimentos na
metrópole. Estava cumprindo uma comissão de serviço como capitão miliciano, no
comando duma companhia regional (cerca de 95% eram angolanos).
Fiz o curso de
capitão miliciano, em Mafra. Após finalizar o curso com sucesso fui enviado
para Angola para cumprir uma comissão de serviço (Jan/73 a Jan/75).
A missão
principal da minha companhia era de dar protecção a uma Fazenda de produção de
café. Também dávamos apoio de vária ordem, sobretudo paramédico, às populações
das proximidades (sanzalas). A minha tropa tinha vários soldados familiares de
militares da FNLA e MPLA. Praticamente já não havia guerra em Angola.
Eu tinha
informações de que o “inimigo” nunca faria mal à nossa companhia, pelo
contrário, muito apreciavam o nosso trabalho humanitário junto das populações
nativas locais.
Naturalmente que
na minha convivência com alguns oficiais do quadro permanente, nomeadamente
capitães, notava, na maior parte das vezes, que havia discordância,
insatisfação e inveja em relação à nossa situação de capitães milicianos
formados em menos tempo do que os oficiais do Quadro Permanente. Eramos
apelidados depreciativamente de “maçaricos”.
Como consequência, a insatisfação que daí advinha, e não só, por
parte de alguns militares do quadro permanente, deu origem a reuniões
clandestinas destes oficiais para debater e refutar, de alguma maneira, a
situação que se vivia e que, no seu entender, não lhes era favorável. Eram
poucos os capitães com coragem de ir para as frentes de combate e o governo
terá aprovado uma lei que com dois anos de Academia Militar os milicianos eram
promovidos a Capitães do Quadro, com data promoção que, nalguns casos,
ultrapassava pessoal com o curso completo. Os oficiais das FA não queriam
que os oficiais milicianos pudessem passar ao Quadro Permanente sem
frequentarem a Academia Militar durante o mesmo número de anos e queriam mais e
melhor remuneração.
Começa, assim, a
formar-se uma corporação interna nas Forças Armadas, habilmente aproveitada
pela URSS através da sua filial Portuguesa, o PCP. Tudo isto foi também
aproveitado por muitos oficiais milicianos ligados ao PCP, que nos QGs terão
ajudado a promover a revolução.
Torna-se,
portanto, evidente que, inicialmente, os verdadeiros motivos dos capitães para
a sua revolução (insurreição, mais propriamente dita, a que os comunistas,
incitadores e oportunistas, chamaram de revolução) se fundamentavam em invejas
e interesses pessoais que violavam o que deveria ser o espírito de uma genuína
revolução para defesa da Nação e da liberdade democrática.
Assim, o 25 de Abril, iniciado por um
grupo de capitães insurrectos e, talvez, sem completa noção da consequência dos
seus actos, movidos por interesses da sua classe, suportados e impulsionados
pelo maléfico, insidioso, desleal e traiçoeiro PC, foi feito,
ao fim e ao cabo, para entregar Angola à URSS e seus aliados, tudo em
consonância com os EUA. Por isso o MFA se apoiou no único partido organizado, o
PC, e daí as cedências que lhes fez posteriormente. Era uma maçada, a guerra
estava ganha em 1973 (Angola) e só de uma maneira ínvia se poderiam satisfazer
as comissões da "entrega". Daí o “golpe dos capitães” de Abril
hipocritamente elaborado com a máscara da liberdade.
Conclusão:
Árvore que nasce podre não pode dar bons frutos.
Por tudo isto e,
principalmente, pelos milhares de Portugueses que foram deixados ao abandono e
chacinados nas colónias (já para não falar dos cerca de 2 milhões de africanos
que vieram a morrer nas guerras que se seguiram), o 25 de Abril, traz-me sempre
uma amargura muito grande.
Lembrar-me que
os terroristas da FNLA assaltavam as fazendas dos brancos assassinando-os
barbaramente, decepando-lhes as cabeças, e, depois, espetavam-nas em paus
cantando e dançando à sua volta.
Lembrar-me que
traidores, que são muitos, como um tal “alegre” que foi membro do movimento nacionalista angolano
mais sanguinário de todos (FNLA de Holden Roberto) e que foi no peito deste
terrorista que o Presidente de todos os Portugueses colocou, há tempos, uma
medalha, dá-me náuseas.
Uma revolução,
quando triunfa, serve para mudar as mentalidades, corrigir o que até então
estava errado e melhorar o que seguia bem. Ora, em 74 e nos anos que se
seguiram ao golpe dos capitães, o que assistimos foi a um assalto às
instituições do Estado Português e à propriedade privada — coisa própria de
insurreições comunistas —, assalto esse que se agudizou com a chegada dos
fundos comunitários provenientes da UE, o que deu origem a que Portugal
atingisse a indesejável 1ª posição dos países mais corruptos da dita União.
Moral da
história: os interesses do povo de Portugal, do povo trabalhador, foram
descurados, não é com salários mínimos de miséria que se alcança a tão
propalada equidade, pois cada vez há ricos a ficarem mais ricos e pobres a
ficarem ainda com menos. A manutenção é uma desgraça, como se viu em Pedrógão e
arredores, no caso das florestas, nos quartéis, como pudemos ver em Tancos, nas
estradas, como se comprovou com o aluimento da Pedreira de Borba, enquanto a
corrupção já entrou de tal modo nos hábitos dos governantes, que ninguém reage
ao facto de terem "desaparecido" 67 milhões de euros da recolha feita
para ajudar as famílias das muitas dezenas de vítimas mortais dos incêndios e
para a reconstrução das casas ardidas, animais, equipamentos agrícolas de toda
a espécie, ou de cinco magistrados estarem acusados de terem aceitado montantes
elevados de dinheiro para fornecerem informações aos prevaricadores ou mesmo
para os absolverem.
Tudo isto o Covid-19 esbateu, menos a gravidade desses
comportamentos. Mas por que aconteceu tudo isto? Porque uma democracia não se
constrói com o PC lá metido, por ser totalitário, ou seja, contrário ao
espírito de um regime veramente democrático, e com partidos da extrema-esquerda
que, depois de terem sido postos em sentido pelo coronel Jaime Neves e os seus
Comandos em Novembro de 75 (mais tarde veio a ser promovido a major-general com base no seu
papel durante a defesa contra o Golpe de 25 de Novembro de 1975 que
colocou um fim ao Processo Revolucionário em Curso, "tendo
em conta o papel muito relevante que Jaime Neves teve para evitar que Portugal
caísse numa ditadura comunista", além de "garantir
que Portugal seguia no sentido do pluralismo, da democracia
e da liberdade de expressão"), regressaram, de
mansinho, 24 anos mais tarde, sob a capa de um "Bloco de Esquerda",
que mais não pretende do que instaurar uma ditadura do proletariado, coisa que
naquela data se preparava para levar a cabo.
E pronto, falar do 25/4 é muito inconsequente porque os traidores
que o levaram a cabo terminaram com a independência de uma das nações mais
antigas da Europa e a união desta pôs-lhe um termo na soberania, como se tem
abundantemente comprovado.
Isto parece-me suficiente para se ficar com uma ideia do que se
passa no panorama político do nosso país.
Posto isto, entendo que é de uma hipocrisia desmedida e patética
continuar-se a celebrar a revolução de Abril, sobretudo do modo como tem sido
feito.
Tenho dito.
CCA
(25/04/2020)
