Uma profecia feita com a lucidez e
o realismo de António Barreto. A LER com atenção e a PARTILHAR, pois é deveras
preocupante e já se encontra em desenvolvimento na Europa e no Mundo.
António Barreto no jornal Público sobre a revisão da História.
Ainda não vimos nada!
É triste confessar, mas ainda estamos para ver
até onde vão os revisores da História. Uma coisa é certa: com a ajuda dos
movimentos anti-racistas, a colaboração de esquerdistas, a cobardia de tanta
gente de bem e o metabolismo habitual dos reaccionários, o movimento de
correcção da História veio para ficar.
Serão anos de destruição de símbolos, de
substituição de heróis, de censura de livros e de demolição de esculturas. Até
de rectificação de monumentos. Além da revisão de programas escolares e da
reescrita de manuais.
Tudo, com a consequente censura de livros considerados impróprios, seguida da
substituição por novos livros estimados científicos, objectivos, democráticos e
igualitários. A pujança deste movimento através do mundo é tal que nada
conseguirá temperar os ânimos triunfadores dos novos censores, transformados em
juízes da moral e árbitros da História.
Serão criadas comissões de correcção, com a
missão de rever os manuais de História (e outras disciplinas sensíveis como o
Português, a Literatura, a Geografia, o Meio Ambiente, as Relações
Internacionais…), a fim de expurgar a visão bondosa do colonialismo, as
interpretações glorificadoras dos descobrimentos e os símbolos de domínio branco,
cristão, europeu e capitalista.
Comissões purificadoras procederão ao inventário
das ruas e locais que devem mudar de nome, porque glorificam o papel dos
colonialistas e dos traficantes de escravos. Farão ainda o levantamento das
obras de arte públicas que prestam homenagem à política imperialista, assim
como aos seus agentes. Já começou, aliás, com a substituição do Museu dos
Descobrimentos pelo Memorial da Escravatura.
Teremos autoridades que tudo farão para retirar
os objectos antes que as hordas cheguem e será o máximo de coragem de que serão
capazes. Alguns concordarão com o seu depósito em pavilhões de sucata. Outros
ainda deixarão destruir, gesto que incluirão na pasta de problemas resolvidos.
Entretanto, os Centros Comerciais Colombo e
Vasco da Gama esperam pela hora fatal da mudança de nome.
Praças, ruas e avenidas das Descobertas, dos Descobrimentos e dos Navegantes,
que abundam em Portugal, serão brevemente mudadas.
Preparemo-nos, pois, para remover monumentos com Albuquerque, Gama, Dias, Cão,
Cabral, Magalhães e outros, além de, evidentemente, o Infante D. Henrique, o
primeiro a passar no cadafalso. Luís de Camões e Fernando Pessoa terão o devido
óbito. Os que cantaram os feitos dos exploradores e dos negreiros são tão
perniciosos quanto os próprios. Talvez até mais, pois forjaram a identidade e
deram sentido aos mitos da nação valente e imortal.
Esperemos para liquidar a toponímia que aluda a
Serpa Pinto, Ivens, Capelo e Mouzinho, heróis entre os mais recentes facínoras.
Sem esquecer, seguramente, uns notáveis heróis do colonialismo, Kaúlza de
Arriaga, Costa Gomes, António de Spínola, Rosa Coutinho, Otelo Saraiva de
Carvalho, Mário Tomé e Vasco Lourenço.
Não serão esquecidos os cineastas, compositores,
pintores, escultores, escritores e arquitectos que, nas suas obras, elogiaram
os colonialistas, cúmplices da escravatura, do genocídio e do racismo. Filmes e
livros serão retirados do mercado.
Pinturas murais, azulejos, esculturas,
baixos-relevos, frescos e painéis de todas as espécies serão destruídos ou
cobertos de cal e ácido. Outras comissões terão o encargo de proceder ao
levantamento das obras de arte e do património com origem na África, na Ásia e
na América Latina e que se encontram em Portugal, em mãos privadas ou em
instituições públicas, a fim de as remeter prontamente aos países donde são
provenientes.
Os principais monumentos erectos em homenagem à
expansão, a começar pelos Jerónimos e pela Torre de Belém, serão restaurados
com o cuidado de lhes retirar os elementos de identidade colonialista. Os
memoriais de homenagem aos mortos em guerras do Ultramar serão reconstruídos a
fim de serem transformados em edifícios de denúncia do racismo. Não há
liberdade nem igualdade enquanto estes símbolos sobreviverem.
Muitos pensam que a História é feita de
progresso e desenvolvimento. De crescimento e melhoramento. Esperam que se
caminhe do preconceito para o rigor. Do mito para o facto. Da submissão para a
liberdade.
Infelizmente, tal não é verdade. Não é sempre verdade. Republicanos, corporativistas,
fascistas, comunistas e até democratas mostraram, nos últimos séculos, que se
dedicaram com interesse à revisão selectiva da História, assim como à censura e
à manipulação.
E, se quisermos ir mais longe no tempo, não
faltam exemplos. Quando os revolucionários franceses rebaptizaram a Catedral de
Estrasburgo, passando a designá-la por Templo da Razão, não estavam a aumentar
o grau de racionalidade das sociedades. Quando o altar-mor de Notre Dame foi
chamado de Altar da Liberdade caminharam alegremente da superstição para o
preconceito.
E quando os bolchevistas ocuparam a Catedral de
Kazab, em São Petersburgo e apelidaram o edifício de Museu das Religiões e do
Ateísmo, não procuravam certamente a liberdade e o pluralismo. E também podemos
convocar os Iconoclastas de Istambul, os Daesh de Palmira ou os Taliban de
Bamiyan que destruíram símbolos, combateram a religião e tentaram apropriar-se
tanto do presente como do passado.
Os senhores do seu tempo, monarcas, generais,
bispos, políticos, capitalistas, deputados e sindicalistas gostam de marcar a
sociedade, romper com o passado e afastar fantasmas. Deuses e comendadores,
santos e revolucionários, habitam os seus pesadelos. Quem quer exercer o poder
sobre o presente tem de destruir o passado.
Muitos de nós pensávamos, há cinquenta anos, que era necessário rever os
manuais, repensar os mitos, submeter as crenças à prova do estudo, lutar contra
a proclamação autoritária e defender com todas as forças o debate livre.
É possível que, a muitos, tenha ocorrido que
faltava substituir uma ortodoxia dogmática por outra. Mas, para outros, o
espírito era o de confronto de ideias, de debate permanente e de submissão à
crítica pública.
O que hoje se receia é a nova dogmática feita de
novos preconceitos. Não tenhamos ilusões.
Se as democracias não souberem resistir a esta
espécie de vaga que se denomina libertadora e igualitária, mergulharão
rapidamente em novas eras obscurantistas.
