Estava de pé e
ela sentada, contava-lhe factos políticos históricos, e ela jovem, vinte e
poucos, cara expressiva, modos despachados, esperta mas pura, resposta pronta
nem sempre pensada, fitava-me presa e desconcertada, eram tantas as surpresas
sobre o que lhe tinham dito e falado, olhos vivos, arregalados, e
interrompia-me como já o fizera amiúde e de seu modo impulsivo e dizia-me «já
há tantas associações por isto e por aquilo, porque não criar uma Associação
para a Defesa da História?» e interrompi-me, agora eu, suspenso naquela ideia
original, que nunca me atravessara, tão oportuna e necessária para este país,
para esta geração e neste tempo, revirei-a, meditei-a por instantes e como quem
lhe passa pelas mãos uma causa que não pode segurar respondi-lhe: «realmente é
uma excelente ideia, mas eu já tenho tanta coisa que não posso, pode ser que
alguém se lembre e eu adiro». Chama-se Raquel. São estes filhos que um
dia haverão de repor a verdade. No dia seguinte tinha um e-mail dela: «Luís,
não me consigo conformar com esta “história”… Se tivesse capacidade era eu
própria que constituía a Associação, movimento, grupo, qualquer coisa! Reunia
os vivos que pudessem testemunhar, pesquisava os escritos do meu avô, registos,
cartas, enfim! Qualquer coisa! Estou indignada e até afectada! Sinto-me
enganada, traída e abusada! Como é possível!?!? Não me sai da cabeça…! Reli o
e-mail. Tristeza e esperança. Tristeza pela impotência, que sou, esperança pela
semente, que será.
E depois, ainda
em 2008: Não mintam mais aos nossos filhos!
Esta é a minha
pequeníssima contribuição, mas já é alguma, para o movimento de indignação
nacional”, que entendo da maior importância e
oportunidade por estes finais de Abril. Antes disso, porém, gostaria de à laia
de preâmbulo deixar duas notas.
A primeira
refere-se à construção da História, não a dos factos genuínos realmente
acontecidos, mas a da versão falseada que sobre eles se edificou. Como sabemos
a história é dos vencedores e não dos vencidos, destes não reza a história,
como é comum dizer-se, quer isto significar, que os vencedores materiais, de
factu e com toda a probabilidade não de jure, forjam a contorção que
mais lhes convém para justificarem a si próprios e ao mundo o porquê dos actos
empreendidos, a qual versão passa a ser desde então a oficial. E quanto mais a
vitória é imoral ou injusta, caso houvesse lugar a aplicar tão cândidos
conceitos no contexto do poder e da força, maior é a mentira dos vencedores.
Sempre foi assim e continuará a ser. Já na antiguidade dizia Breno, célebre
caudilho gaulês que derrotou e saqueou Roma no ano de 390 a.C., vae victis! Ai
dos vencidos!
É preciso que
passe a geração dos vencedores e fazedores da História para que aos poucos e
poucos a verdade aprisionada comece a libertar-se. Muitas vezes é necessária
mais do que uma geração, tão enraizada na cultura oficial foi a mentira, e é
sempre dramática a revelação da realidade porque fatalmente acabará por opor
pais e filhos, os pais porque autores ou cúmplices de um legado falso, os
filhos porque descobrem ser vítimas de um embuste.
Ora desta
falsificação da História não se escaparam nem Portugal nem os portugueses no
que se refere quer ao 25 de Abril, quer ao processo de descolonização. A
história que nos tem sido contada pelos seus protagonistas e afins, geração
ainda viva, está cheia de mentiras, pelas razões óbvias de tentar esconder a
verdade sobre si próprios, de quem eram, e de justificar à luz de ideais não
existentes, porque o fizeram.
Desta geração,
há uns que viveram a História e conhecem a verdade, mas não têm assento, nem
voz, há outros que também a viveram e torcem a verdade, por exclusivas razões
de má consciência ou de outra forma perderiam respeito por si próprios, e há
muitos outros que não sabendo minimamente do que falam, ou papagueiam o
discurso disciplinado do politicamente correcto, ou ainda, por maior
zelo de conveniência, mais inventam. Que os segundos tenham mentido a si
próprios e à sua geração é grave, que os terceiros, meros fantoches daqueles,
os imitem na mentira, continua ser grave, mas agora que ambos mintam
descaradamente aos seus filhos, isso já é intolerável.
O mal está
feito, em muitos casos irreparável, o tempo não retrocede, a história é assim,
não há uma história perfeita, os vencedores mentiram, esconderam-se na falsidade,
não tiveram a coragem da verdade, foram cobardes, hoje poderão não ter ainda a
bravura do arrependimento e da confissão, o homem é fraco, mas há uma coragem
mínima que lhes é exigida, não mentirem mais aos seus e aos nossos filhos. Se
não a tiveram para si que a tenham pelo menos para os seus filhos! Chega de
história política, é tempo da verdadeira História.
E termino aqui
a primeira nota, longa, mas necessária.
Quanto à
segunda é uma precaução que infelizmente se justifica na previsão da fuga de
certos leitores facciosos, intelectualmente desonestos, que não tendo argumento
que pese procuram desviar as atenções para o lugar-comum dos rótulos
ideológicos apressados. São estes os caciques que depauperados de toda a
imaginação, enchem a boca das palavras, reaccionário, fascista, colonialista
etc.
Mas
desenganem-se tais enganadores, pois provavelmente sou na prática da vida mais
apologista da autodeterminação dos povos, que outra coisa não poderia
patrocinar em coerência com a defesa dos direitos humanos elementares de que me
tenho constituído acérrimo combatente, do que muitos daqueles serão mesmo em
teoria.
E por isso
podem pois esses senhores abster-se dessas fabulações descabidas.
LCA
(Abril/2008)
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