Uma visão lúcida de um antigo dirigente do PS que qualifica as governações socialistas dos últimos vinte anos, como incompetentes, nepotistas e extremamente corruptas, governando apenas para os interesses que lhes convêm e pouco lhes importando o progresso do país e os portugueses. O homem sabe bem daquilo que fala, conhece muito bem aquilo por dentro.
“Alguns dos leitores do meu texto da semana passada, poderão certamente responder que, por alguma razão, o PS continua no poder, depois dos últimos 18 anos que tratei, que tem um nível de apoio nas sondagens invejável e que provavelmente assim continuará nos próximos anos. É verdade, mas é também e razão deste novo texto.
A primeira razão são as circunstâncias em que o PS chegou e se manteve ao poder, depois de quatro anos em Passos Coelho, a braços com a herança trágica de José Sócrates, assumiu que a sua missão principal, porventura a única, seria recuperar a credibilidade internacional e, sem grande experiência, ou interesse pessoal na pequena propaganda política, enveredou pela penalização da classe média e por um discurso de alguma insensibilidade geracional, humana e social. Apesar de ter tentado poupar os mais pobres.
Depois outra circunstância, a de depois de quarenta anos de oposição sistemática, o PCP se ter deixado enredar na geringonça, com a ideia que poderia avançar com algumas das suas prometidas conquistas, o que na prática conseguiu, ainda que através de um modelo económico insustentável e de um futuro eleitoral muito pouco promissor. Para o Bloco de Esquerda, a ambição dos dirigentes era o acesso ao poder por razões políticas, mas também de ambição pessoal e o desejo de ganhar eleitoralmente ao PCP.
Nada disto teve a ver com o futuro de Portugal, ou com a consciência de que não existe, a médio prazo, melhor protecção social sem melhor economia, questão que nos conduz ao presente.
Com a crise deixada por José Sócrates e a gestão política pouco hábil de Pedro Passos Coelho, os portugueses, principalmente da classe média, apanharam um grande susto, perderam rendimentos, passaram a ver o futuro com medo de não poderem manter o seu nível de vida e, apesar de ainda terem medo do PS, razão porque o PS não ganhou as eleições, começaram todavia a ser sensíveis a uma inversão das políticas que os assustavam e às promessas de António Costa, muito facilitadas pelo novo ciclo de crescimento das economias europeias e mundiais e do crescimento do turismo, além da nova política de apoio financeiro do Banco Central Europeu.
Além disso, a chegada próximo do poder do PCP e do Bloco de Esquerda, criou a ilusão de uma grande aliança de esquerda, com efeitos parlamentares efectivos e a criação de um ambiente de grande estabilidade, para o que muito contribuiu a imagem populista do Presidente da República.
Não menos importante, temos a relativa inocência do PSD de Rui Rio, que acredita poder servir Portugal ajudando o PS a governar melhor, o que obviamente não é possível, dado que há muito o PS perdeu de vista o interesse nacional para privilegiar os negócios que favorecem alguns dos seus aliados e financiadores, situação bem servida através da ilusão de algumas concessões à esquerda, destinadas a manter a geringonça viva e manter o poder.
Esta evolução teve como resultado amarrar o PCP e o Bloco de Esquerda às políticas e aos interesses do PS. Porque, como sabiamente foi dito, após as últimas eleições, por Augusto Santos Silva, o PCP e o Bloco não podem entregar, com o seu voto no Parlamento, o poder à direita. Visão facilitada pelo facto do centro direita não mostrar ser uma alternativa convincente e aceitar demasiadamente os erros e os desmandos da governação do PS. Razões que estão na origem do crescimento excessivo, para Portugal, do novo partido Chega. Ou seja, a extrema-direita vai crescer em Portugal devido aos erros do Governo e da venalidade do PS, além da passividade do PSD.
Estas são algumas das circunstâncias porque muitos portugueses, habitualmente mais preocupados com o presente do que com o futuro, aceitam a governação de forma positiva, ainda que passiva. Nomeadamente no tema da corrupção, que é uma herança inegavelmente do PS, seja pelo número de anos que o partido está no poder sem nada fazer para a combater, seja porque tem sido nos turnos do PS que a corrupção mais tem crescido, seja porque os pequenos e grandes casos envolvem membros do PS, uns mais ilustres do que outros, mas todos a comer na gamela do Estado.
Claro que esta não é uma situação sustentável, seja porque a União Europeia não nos vai sustentar para todo o sempre, seja porque as maldades feitas por António Costa às empresas e à liberdade económica têm custos, seja, finalmente, porque a corrupção vai corroendo o processo democrático. Apesar disso, não vejo que uma nova ditadura esteja no horizonte e não duvido que António Costa possa continuar a enrolar os problemas do País por mais algum tempo através da propaganda política e das circunstâncias descritas. Todavia não tenho grande dúvida de que o acordar dos portugueses vai ser muito doloroso, certamente mais doloroso do que no tempo do último pedido de ajuda internacional e da Troika e vejo à nossa frente alguns anos de grande convulsão social, bem como o crescente atraso de Portugal relativamente a todos os outros países da União Europeia.
Talvez que nessa nova circunstância o PCP, o Bloco de Esquerda e alguns extremistas que andam por aí, tentem fazer o que não conseguiram fazer a seguir ao 25 de Abril, mas isso já não é uma previsão, para ser apenas futurologia”.
21-08-2020
Henrique Neto
Diário de Coimbra

