segunda-feira, 14 de setembro de 2020

“A herança de 18 anos de governação do PS”

Uma visão lúcida de um antigo dirigente do PS que qualifica as governações socialistas dos últimos vinte anos, como incompetentes, nepotistas e extremamente corruptas, governando apenas para os interesses que lhes convêm e pouco lhes importando o progresso do país e os portugueses. O homem sabe bem daquilo que fala, conhece muito bem aquilo por dentro.

“Alguns dos leitores do meu texto da semana passada, poderão certamente responder que, por alguma razão, o PS continua no poder, depois dos últimos 18 anos que tratei, que tem um nível de apoio nas sondagens invejável e que provavelmente assim continuará nos próximos anos. É verdade, mas é também e razão deste novo texto.

A primeira razão são as circunstâncias em que o PS chegou e se manteve ao poder, depois de quatro anos em Passos Coelho, a braços com a herança trágica de José Sócrates, assumiu que a sua missão principal, porventura a única, seria recuperar a credibilidade internacional e, sem grande experiência, ou interesse pessoal na pequena propaganda política, enveredou pela penalização da classe média e por um discurso de alguma insensibilidade geracional, humana e social. Apesar de ter tentado poupar os mais pobres.

Depois outra circunstância, a de depois de quarenta anos de oposição sistemática, o PCP se ter deixado enredar na geringonça, com a ideia que poderia avançar com algumas das suas prometidas conquistas, o que na prática conseguiu, ainda que através de um modelo económico insustentável e de um futuro eleitoral muito pouco promissor. Para o Bloco de Esquerda, a ambição dos dirigentes era o acesso ao poder por razões políticas, mas também de ambição pessoal e o desejo de ganhar eleitoralmente ao PCP.

Nada disto teve a ver com o futuro de Portugal, ou com a consciência de que não existe, a médio prazo, melhor protecção social sem melhor economia, questão que nos conduz ao presente.

Com a crise deixada por José Sócrates e a gestão política pouco hábil de Pedro Passos Coelho, os portugueses, principalmente da classe média, apanharam um grande susto, perderam rendimentos, passaram a ver o futuro com medo de não poderem manter o seu nível de vida e, apesar de ainda terem medo do PS, razão porque o PS não ganhou as eleições, começaram todavia a ser sensíveis a uma inversão das políticas que os assustavam e às promessas de António Costa, muito facilitadas pelo novo ciclo de crescimento das economias europeias e mundiais e do crescimento do turismo, além da nova política de apoio financeiro do Banco Central Europeu.

Além disso, a chegada próximo do poder do PCP e do Bloco de Esquerda, criou a ilusão de uma grande aliança de esquerda, com efeitos parlamentares efectivos e a criação de um ambiente de grande estabilidade, para o que muito contribuiu a imagem populista do Presidente da República.

Não menos importante, temos a relativa inocência do PSD de Rui Rio, que acredita poder servir Portugal ajudando o PS a governar melhor, o que obviamente não é possível, dado que há muito o PS perdeu de vista o interesse nacional para privilegiar os negócios que favorecem alguns dos seus aliados e financiadores, situação bem servida através da ilusão de algumas concessões à esquerda, destinadas a manter a geringonça viva e manter o poder.

Esta evolução teve como resultado amarrar o PCP e o Bloco de Esquerda às políticas e aos interesses do PS. Porque, como sabiamente foi dito, após as últimas eleições, por Augusto Santos Silva, o PCP e o Bloco não podem entregar, com o seu voto no Parlamento, o poder à direita. Visão facilitada pelo facto do centro direita não mostrar ser uma alternativa convincente e aceitar demasiadamente os erros e os desmandos da governação do PS. Razões que estão na origem do crescimento excessivo, para Portugal, do novo partido Chega. Ou seja, a extrema-direita vai crescer em Portugal devido aos erros do Governo e da venalidade do PS, além da passividade do PSD.

Estas são algumas das circunstâncias porque muitos portugueses, habitualmente mais preocupados com o presente do que com o futuro, aceitam a governação de forma positiva, ainda que passiva. Nomeadamente no tema da corrupção, que é uma herança inegavelmente do PS, seja pelo número de anos que o partido está no poder sem nada fazer para a combater, seja porque tem sido nos turnos do PS que a corrupção mais tem crescido, seja porque os pequenos e grandes casos envolvem membros do PS, uns mais ilustres do que outros, mas todos a comer na gamela do Estado.

Claro que esta não é uma situação sustentável, seja porque a União Europeia não nos vai sustentar para todo o sempre, seja porque as maldades feitas por António Costa às empresas e à liberdade económica têm custos, seja, finalmente, porque a corrupção vai corroendo o processo democrático. Apesar disso, não vejo que uma nova ditadura esteja no horizonte e não duvido que António Costa possa continuar a enrolar os problemas do País por mais algum tempo através da propaganda política e das circunstâncias descritas. Todavia não tenho grande dúvida de que o acordar dos portugueses vai ser muito doloroso, certamente mais doloroso do que no tempo do último pedido de ajuda internacional e da Troika e vejo à nossa frente alguns anos de grande convulsão social, bem como o crescente atraso de Portugal relativamente a todos os outros países da União Europeia.

Talvez que nessa nova circunstância o PCP, o Bloco de Esquerda e alguns extremistas que andam por aí, tentem fazer o que não conseguiram fazer a seguir ao 25 de Abril, mas isso já não é uma previsão, para ser apenas futurologia”.

 

21-08-2020

Henrique Neto

Diário de Coimbra



 


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