quinta-feira, 27 de maio de 2021

Homenagem a um português de excepção

Ao completarem-se hoje 120 anos sobre a morte de “um português de excepção”, Januário Corrêa d’Almeida (meu tio trisavô, irmão de meu trisavô Carlos Corrêa d’Almeida) não quis deixar passar esta data sem deixar de manifestar publicamente a minha admiração e pundonor por este meu ilustre antepassado.

Sobre a sua pessoa, seguem-se alguns extractos retirados do livro (volume com 208 páginas) de autoria do Professor Catedrático, João Luís Cardoso, intitulado “O General Conde de S. Januário (1827-1901) Um Português de Excepção”.




“Apresentação

O presente volume dos Estudos Arqueológicos de Oeiras constitui um número especial inteiramente dedicado à vida do Conde de São Januário Correia de Almeida, nascido em Paço de Arcos em 1827 e falecido na sua Quinta dos Castelos, ou da Portela, sita na mesma freguesia, em 1901, com 74 anos, depois de uma vida inteira dedicada à Causa Pública….

O facto de ser pouco conhecido dos Portugueses em geral, bem como dos actuais habitantes do concelho de Oeiras, que o viu nascer e morrer, apesar de ser uma das personalidades mais notáveis do século XIX português e existir em Paço de Arcos uma importante artéria com o seu nome inaugurada ainda em vida do homenageado, justifica largamente esta obra…o leitor, ao longo da verdadeira peregrinação que constituem as páginas do livro, vai poder acompanhar de perto Januário Correia de Almeida pelas sete partidas do Mundo, ao serviço do seu País: primeiro, já como Capitão do Corpo de Estado-Maior do Exército e diplomado em Matemática pela Universidade de Coimbra, em Cabo Verde, onde providenciou a construção de importantes infra-estruturas: para além da rede viária, então incipiente, devem-se-lhe as alfândegas de Santiago e do Mindelo, ainda hoje existentes, a construção do primeiro Liceu na Cidade da Praia e do edifício da Câmara Municipal entre muitos outros melhoramentos, de que se destacam as obras no porto daquela cidade, essenciais para a comunicação com o exterior…

…de muito interesse é também o relatório na sua missão na Guiné portuguesa, então administrativamente dependente do Governo-Geral de Cabo Verde…o bom desempenho daquela missão augurava-lhe futuro à medida das suas capacidades e talento: assim, depois de uma curta estada no Reino, onde assumiu diversas funções, destacando-se a de Governador Civil do Porto, por duas, vezes, de que resultou, como passou a ser hábito, a publicação de detalhado relatório dando conta da realidade existente e das melhorias que procurou introduzir, foi designado em 1870 como 49.º Governador-Geral da Índia. Ali teve de debelar revolta militar, o que conseguiu com tal eficácia, rejeitando a ajuda inglesa que lhe foi oferecida, a ponto de as forças enviadas da metrópole, comandadas pelo Infante D. Augusto já não serem necessárias, quando ali aportaram. No curto período de dois anos incompletos do seu governo disciplinou as forças armadas, mandou cunhar moeda nova e introduziu o selo postal.

O desempenho enérgico e inovador protagonizado na Índia justificou a sua designação como Governador-Geral de Macau e Timor, que assumiu em 1872 e se prolongou até finais de 1874. De novo emergiram tais qualidades, a par da capacidade de negociação, a ponto de os chineses terem acordado na cedência dos direitos dos portugueses na península de Hai-Nan em 1874, a par do acordo verbal que conseguiu para delimitação da fronteira marítima. Combateu a pirataria, no que recolheu o reconhecimento chinês, conferindo maior segurança ao território, cuja defesa militar reforçou, incluindo a construção de um novo quartel, ao mesmo tempo que providenciava melhorias para a população, com a construção do primeiro hospital, o qual, hoje alojado em edifício moderno, significativamente conserva ainda o seu nome, tal a boa recordação que este ali deixou. Afigura-se muito instrutivo ler os seus relatórios, publicados pela Imprensa Nacional, onde se compreende, uma vez mais, a rara capacidade de liderança do Governador, como, por exemplo, aquando de devastador tufão que provocou milhares de mortos e o caos, com o surgimento de fundados sentimentos de insegurança entre os portugueses.

Acumulando as funções de Governador de Macau e Timor com as de Ministro Plenipotenciário de Portugal nas cortes da China, Japão e Sião, interveio decisivamente na disputa dinástica em curso neste último reino a favor do pretendente que acabou por ganhar o pleito, o qual, reconhecido, lhe endereçou carta pessoal de agradecimento…

…no Japão, onde também apresentou credenciais, emocionou-se, em Nagasáqui, com a chamada “Ponte dos Portugueses”, construção granítica quinhentista de dois arcos, que lhe recordou as paisagens minhotas, que tão bem conhecia.

De novo em Lisboa, a partir de 1875, envolve-se em iniciativas de carácter cívico, sendo fundador e o primeiro Presidente da Sociedade de Geografia de Lisboa, em 1876 e de diversas agremiações científicas ou humanitárias, sempre com funções directivas, com destaque para a Associação dos Arqueólogos Portugueses, da qual viria a ser Presidente, sucedendo em 1896 a Possidónio da Silva, sendo também então eleito sócio da Academia das Ciências de Lisboa.

Em 1878 e 1879 percorreu, de novo como Ministro Plenipotenciário, as repúblicas sul-americanas do Uruguai, Paraguai, Argentina, Chile, Bolívia, Peru e México, num périplo extenuante, tanto do ponto de vista físico como psíquico, tendo em consideração a instabilidade reinante naquela região em virtude dos conflitos que opunham alguns daqueles países, a somar à morosidade dos transportes. O objectivo principal desta missão consistiu na identificação das condições para o estabelecimento de relações comerciais com aqueles países e, ao mesmo tempo, apoiar as colónias de Portugueses espalhados por tão vasto território, o que foi plenamente conseguido. O respectivo Relatório, logo publicado em 1880, dá conta dos resultados alcançados.

Trouxe dessa missão um notável conjunto de espólios, especialmente ornitológicos, mineralógicos e arqueológicos, que ofereceu a diversas instituições, providenciando exposições de objectos até então desconhecidos em Portugal, tal como já o havia feito com as peças que trouxera do Oriente, com isso promovendo a instrução de todos, num exercício de cidadania raro no seu tempo.

Foi esse sentimento de partilha e disponibilidade pela causa pública que o terá incentivado a envolver-se na política do seu tempo, assumindo por duas vezes pastas ministeriais em Governos do Partido Progressista, primeiro a da Marinha e Ultramar, num ministério presidido por Anselmo José Braamcamp, entre 1880 e 1881, e depois, entre 1886 e 1888, a pasta da Guerra, em ministério chefiado por José Luciano de Dastro.

Com o ultimatum inglês de 1890, integrou um conjunto de portugueses que, interpretando o sentimento largamente maioritário, organizaram uma subscrição nacional para a aquisição de meios de defesa destinados a assegurar a soberania dos territórios ultramarinos. Foi assim que, desde 1891 até 1897, presidiu à Comissão Executiva daquela iniciativa cívica. As actas das mais de 150 sessões realizadas foram prontamente publicadas pela Imprensa Nacional, contendo os nomes de todos os subscritores, as decisões tomadas, as quantias apuradas e os destinos que lhes foi dado, destacando-se a compra do cruzador Adamastor, encomendado nos estaleiros de Livorno e depois entregue ao Governo português, numa rara afirmação de sucesso de uma iniciativa fora da esfera governamental de grandes proporções, que mobilizou e uniu os Portugueses.

Facilmente se adivinha o sentimento de missão cumprida experimentado pelo ilustre paçoarquence que, naquele mesmo ano de 1897 teve a honra de ladear Mouzinho de Albuquerque aquando do seu apoteótico desembarque em Lisboa, na qualidade de General Comandante da 1.ª Divisão Militar, cargo que culminou a sua carreira militar, depois de ter sido Comandante da Escola do Exército nos anos anteriores…

…Homens como Januário Correia de Almeida, Par do Reino, Conselheiro de Estado e Ministro Honorário, Barão, Visconde e Conde de São Januário por mercê de El-Rei D. Luís, Comendador da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, e de muitas outras altas condecorações, podem ter conhecido, em vida, o merecido reconhecimento pelo mérito das acções que assumiram, mas a sua memória quase sempre se desvanece, na voragem do tempo, deles ficando apenas um nome, eco distante do muito que fizeram em prol dos seus concidadãos…”

(Oeiras, 25 de Junho de 2018 – O Presidente, Isaltino Afonso Morais)


1 - Razões de uma homenagem

O General de Divisão Januário Correia de Almeida, Conde de São Januário (Paço de Arcos, 31 de Março de 1827; Paço de Arcos, 27 de Maio de 1901) foi ilustre militar, administrador, engenheiro e diplomata, pertencente a um escol de notáveis portugueses do seu tempo que tanto prestigiaram e engrandeceram o País, boa parte deles hoje quase completamente esquecidos: tal a razão deste preito de homenagem à sua memória que agora se publica, depois de, em 2013, se ter valorizado o seu perfil científico (CARDOSO, 2013).

As qualidades do seu carácter explicam o sucesso de todas as empresas – algumas de alto risco – que protagonizou, como os seus biógrafos justamente realçam. Foram os seus méritos pessoais, postos ao serviço do País, que justificam a outorga, por El-Rei D. Luís, do título de Barão de São Januário, em 1866, depois Visconde em 1867 e finalmente Conde de São Januário, em 1889, bem como o reconhecimento de muitas nações que lhe outorgaram as mais altas condecorações: Grã-Cruz da Ordem da Coroa (Itália); Grã-Cruz da Ordem de São Maurício e São Lázaro (Itália); Grã-Cruz da Ordem Real do Cambodja; Grã-Cruz da Ordem da Coroa de Sião; Grã-Cruz da Ordem do Sol Nascente (Japão); Grã-Cruz da Ordem de Isabel a Católica (Espanha); Grande Oficial da Ordem Nacional da Legião de Honra e Oficial da Ordem da Instrução Pública (França); Grande Cordão da Ordem de Leopoldo (Bélgica); Grã-Cruz da Ordem da Espada (Suécia); e Grande Dignitário da Imperial Ordem da Rosa (Brasil).

Em Portugal, possuía o grau de Comendador da Ordem da Torre e Espada do Valor, Lealdade e Mérito; a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo; a Grã-Cruz da Ordem Militar de São Bento de Aviz; e a Grã-Cruz da Ordem Militar de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa. Esta última era uma das condecorações mais queridas da Dinastia de Bragança, que ele significativamente destaca nos diversos retratos conhecidos, com destaque para o conservado na Associação dos Arqueólogos Portugueses, executado pelo exímio retratista António Félix da Costa depois de ter ascendido à Presidência daquela agremiação científica, com a farda de General de Divisão, ostentando a faixa daquela Grã-Cruz, a placa correspondente e a medalha da mesma Ordem (Fig. 1).


Como militar, possuía ainda as Medalhas de Ouro de Comportamento Exemplar, a de Bons Serviços e a de Serviços no Ultramar (Fig. 2).



2 – Januário Correia de Almeida e Oeiras

Januário Correia de Almeida, nascido em Paço de Arcos a 31 de Março de 1827 (Fig.3) era filho do Fidalgo da Casa Real do mesmo nome, Tesoureiro-Geral da Armada, e de sua mulher, D. Bárbara Luísa dos Santos Pinto e tinha profundas raízes nas terras oeirenses. Respiga-se de duas obras de Rogério de Oliveira Gonçalves as informações a seguir apresentadas (GONÇALVES, 1992, Tábua XXI; GONÇALVES, 1995, p. 176, 177), que cita recorrentemente a obra de Joaquim Corrêa da Silva (SILVA, 1925). Eram seus trisavôs José de Almeida e D. Joaquina Tomásia, tendo ido buscar àquele o seu último apelido representado no tempo do Marquês de Pombal por José de Almeida, que em vão o Marquês procurou fazer titular, na estratégia de criação de uma nova aristocracia. Com efeito, os Almeidas eram lavradores e comerciantes de Paço de Arcos e regiões vizinhas. 



Eram também proprietários de muitas terras de pão que se estendiam por aquelas encostas bem como os grandes prédios da beira-mar da vila de Paço de Arcos, a par de casais dos arredores, o que constituía uma assinalável fortuna.

D. Margarida do Carmo Almeida foi bisavó paterna do Conde de S. Januário, tendo casado com outro lavrador da região, de nome Manuel Correia (o Memorial Histórico de Oeiras refere personagem com aquele nome, talvez o mesmo, que foi juiz da Câmara Municipal de Oeiras em 24 de Maio de 1793), grande proprietário e produtor de azeite, que tinha sempre à carga por sua conta navios na baía de Paço de Arcos, época em que se verificou o apogeu da fortuna da família.

É tradição (SILVA, 1925, XXIII) que, aquando da entrada de Junot em Lisboa, Manuel Correia, assistido da Mãe e da Mulher, enterrou a sua fortuna numa cova de um armazém onde, tempos volvidos, voltou para verificar que alguém o antecedera, o que lançou a família em dificuldades. Do referido casamento houve dois filhos, Januário Correia de Almeida e D. Jesuína Amália Correia, mãe do 1.º Conde de Paço de Arcos, Carlos Eugénio Correia da Silva. O primeiro daqueles seus filhos, proprietário e herdeiro da casa de seus pais, casou com D. Margarida Correia, foi pai de outro Januário Correia de Almeida, (falecido em 1835), Tesoureiro-Geral da Armada, Fidalgo da Casa Real, casado com D. Bárbara Luísa dos Santos Pinto (falecida em 1860).

Foi deste matrimónio que nasceu Januário Correia de Almeida, o futuro Conde de S. Januário, que veio a casar a 26 de Novembro de 1885 com D. Maria Clementina de Lencastre Vasconcelos e Sousa Leme Corte Real, em Braga-Montariol (Fig.4) nascida a 21 de Setembro de 1865, bisneta de D. Teresa Francisca de Paula Pereira de Faria Saldanha e Lencastre, 12.ª Senhora das Alcáçovas (Fig. 5)…


Pouco tempo depois nasciam as suas duas filhas, D. Maria Teresa Correia de Almeida, a 30 de Setembro de 1888, representante do título de Condessa de S. Januário e D. Maria do Patrocínio Correia de Almeida nascida a 20 de Dezembro de 1889, que teve uma filha natural, com geração.

Um cartão de felicitações de Camilo Castelo Branco, seu velho Amigo dos tempos em que São Januário exerceu os altos cargos político-administrativos no Norte do País adiante referidos documenta um episódio de felicidade, provavelmente de carácter familiar, na vida de S. Januário (Fig. 7).



Pelo casamento de Januário Correia de Almeida com D. Maria Clementina, uniu-se a casa do já então Conde de S. Januário à Casa das Alcáçovas/Arrochela/Castelo de Paiva, senhores do Palácio dos Arcos, encontrando-se por outro lado relacionada por parentesco próximo, com a Casa dos Condes de Paço de Arcos (GONÇALVES, 1992, 1995).

A última Condessa de São Januário, D. Fernanda Dores de Almeida, viúva de D. Tomás Maria Chatillon de Almeida, prima do Autor, morreu sem geração…

…A Quinta dos Castelos, da segunda metade do século XIX, assim chamada pela arquitectura da respectiva casa, vasta residência campestre com ameias nas cimalhas, também chamada da Portela, por se situar numa área de cumeada, constituindo portela da Quinta da Terrugem, mais antiga, foi a residência em Paço de Arcos de Januário Correia de Almeida, que a mandou edificar (Fig. 9).



Ali residiu longas temporadas quando se ausentava da sua casa de Lisboa, onde vivia habitualmente, pois morava na Rua de S. Francisco de Paula, actual Rua Presidente Arriaga, às Janelas Verdes, depois de ter residido na Rua Oriental do Passeio Público, n.º 84 e na Rua do Alecrim, n.º 62.

A sua pedra de armas, que encimava o portão que dava acesso a área morada adjacente à casa da quinta da Portela, encontra-se hoje resguardada numa dependência da quinta da Terrugem, pertença da Câmara Municipal de Oeiras, onde foi fotografada, embora com mutilações recentes. O brasão, esquartelado, apresenta no primeiro quartel as armas dos Correias, no segundo as dos Almeidas, no terceiro as dos Pintos e no quarto, em campo de sangue, uma espada de ouro (vontade de justiça), ladeada à direita por uma e à esquerda por duas estrelas de prata (fulgor de nobreza).

Admite-se que esta pedra de armas tenha sido outorgada aquando da sua elevação a Conde, uma vez que se desconhece qualquer outra anterior possuindo esta a coroa de nove pontas, característica daquele título de nobreza (Fig. 10).


Oeiras, concelho que o viu nascer e morrer, não o esqueceu, conferindo a uma artéria em Paço de Arcos o seu nome: Avenida Conde de São Januário, ainda em vida do homenageado a 19 de Julho de 1900 (Fig. 11), quando o mesmo estanciava na sua quinta da mesma localidade. A casa da quinta onde residiu e veio a falecer foi, na década de 1980, completamente demolida, dando lugar a uma grande urbanização, correspondendo ao Largo 7 de Dezembro, data da criação da Freguesia de Paço de Arcos, em 1926 e à Rua José Ferrão Castelo Branco, n.º 75. Um condomínio moderno de luxo possui o seu nome, dando-lhe a necessária continuidade, aproveitando o prestígio que aquele ainda confere, embora ignorando completamente o seu significado (Fig. 12).





3 - Um militar exemplar

Conforme consta do seu Processo Individual, consultado em Lisboa no Arquivo Histórico Militar, de onde se retiraram os elementos a seguir apresentados, Januário Correia de Almeida alistou-se aos 17 anos como Voluntário no Batalhão de Caçadores, N.º 2, a 4 de Novembro de 1842. Obteve licença para estudar na Escola Politécnica, onde se encontrava matriculado antes da incorporação, depois de ter frequentado o Real Colégio Militar. Na Informação semestral referida ao 1 de Janeiro de 1843, é-lhe atribuído o seguinte juízo: “Este Aspirante veio a pouco tempo sentar praça e está frequentando os estudos da Escola Polithecnica, hé bem educado, e bastante vivo o que dá esperança que pª. o foturo será bom Off.al.” No entanto, em todas as informações anuais analisadas do Batalhão de Caçadores N.º 2 é referido como uma pessoa de disposição violenta. A crer em tais informações, é de admitir que aquela característica do seu carácter dos seus verdes anos tenha evoluído para o seu modo de ser enérgico e afirmativo, que fez dele uma personalidade com autoridade e carisma, características que lhe foram tão necessárias ao desempenho das difíceis missões que assumiu ao longo de sua vida operosa e útil.

Foi declarado Aspirante a Oficial (por Ordem do Exército N.º 56 de 15 de Dezembro de 1842) e obteve Licença para frequentar a Escola do Exército em 6 de Outubro de 1843.

Completou, a 23 de Junho de 1845, o curso de estudos militares estabelecido pelo Art. 5.º do Decreto de 12 de Janeiro de 1837 para a Cavalaria e Infantaria.

Foi promovido a Cabo a 15 de Agosto de 1845, a 2.º Sargento a 30 de Outubro e a 1.º Sargento a 1 de Dezembro.

Obteve nova licença a 11 de Outubro de 1845 para frequentar a Escola Politécnica.

Passou ao Regimento de Cavalaria N.º 1 em 14 de Fevereiro de 1846.

Participou na subjugação da revolta popular conhecida pelo nome de Maria da Fonte, em 1846 integrado no Regimento de Lanceiros N.º 2 (Lisboa).

Promovido a Alferes de Cavalaria por Decreto de 22 de Dezembro de 1846, foi colocado no Regimento de Cavalaria N.º 1 (Ordem do Exército N.º 14, de 27 de Fevereiro de 1847). Em 9 de Outubro de 1849 obteve de novo licença para estudar, desta vez na Faculdade de Matemática da Universidade de Coimbra, onde obteve o grau de Bacharel em Matemática a 20 de Junho de 1853.

Em 1852, durante as férias grandes, serviu no Regimento de Cavalaria N.º 2, Lanceiros da Rainha.

Em 1853 obteve nova licença para estudar na Escola do Exército, certamente depois de obtido em Coimbra o grau de bacharel em Matemática, para ali realizar o Curso de Estado-Maior, ali concluído a 25 de Julho de 1854.

Em 1854, durante as férias grandes, foi efectivo no serviço do Regimento de Cavalaria N.º 2, na instrução prática dos reconhecimentos militares a cargo da Escola do Exército, cujo desempenho foi objecto de louvor.

Como Tenente de Cavalaria, já com o curso de Estado-Maior, foi chamado a exercer funções de Engenheiro Civil e Militar na Província de Cabo Verde pelo Ministério da Marinha e do Ultramar (por Decreto de 13 de Novembro de 1857), sendo posteriormente promovido a Capitão do Estado-Maior do Exército (por Decreto de 2 de Dezembro de 1857).

Por Decreto de 22 de Dezembro de 1857 foi designado Director dos Serviços de Obras Públicas da Província de Cabo Verde, tendo sido louvado pela forma como ali dirigiu e executou várias obras públicas, na qualidade de Engenheiro Militar e Civil (Portaria do Ministério da Marinha e Ultramar de 12 de Novembro de 1858).

Durante a sua permanência na Província de Cabo Verde, exerceu por algum tempo, em 1858, o Governo da Praça de Cacheu, na Guiné Portuguesa e provisoriamente o de Governador-Geral da referida Província entre 8 de Agosto de 1860 e 1 de Abril de 1861.

Em 25 de Julho de 1861, regressado à Metrópole, passou a servir no Ministério das Obras Públicas, exercendo as funções de Director das Obras Públicas nos Distritos de Braga e de Viana do Castelo, reunidos numa só direcção (30 de Setembro de 1861).

Transitou para o Ministério do Reino a 17 de Janeiro de 1862, a fim de exercer o cargo de Governador Civil do Distrito do Funchal e, mais tarde, o de Comissário Régio no Distrito de Vila Real (1864).

Sendo Major, foi nomeado Governador-Geral da Índia por Carta Régia de 9 de Fevereiro de 1870. Tal nomeação era perfeitamente justificada em virtude de ter adquirido assinalável prática na Administração Pública nos cargos político-administrativos anteriormente desempenhados, a que se juntou o de Vogal da Comissão nomeada para propor ao Governo o regulamento geral de contabilidade pública central do Ministro das Obras Públicas e os regulamentos respectivos.

Foram-lhe, pouco depois, concedidas as honras de Ajudante-de-Campo de Sua Majestade El-Rei (por Decreto de 12 de Maio de 1871); os seus retratos com farda posteriores a esta data registam tal distinção, através das agulhetas neles representadas.

Em 1872 assumiu o cargo de Governador-Geral de Macau e Timor, cargo que exerceu até 7 de Dezembro de 1874, tendo entretanto sido nomeado Ministro Plenipotenciário na China, Japão e Sião, onde exerceu notáveis actividades adiante descritas.

Findas aquelas Comissões, apresentou-se no Ministério da Guerra, por Ordem do Exército N.º 26. Foi colocado no quadro do Corpo de Estado-Maior do Exército, por Decreto de 21 de Janeiro de 1876, e posteriormente nomeado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros para ser Enviado Extraordinário e Ministro Plenipotenciário junto dos Governos das repúblicas sul-americanas (Oficio do Ministério da Guerra de 29 de Maio de 1878), missão que merecerá desenvolvida análise na presente obra.

Foi promovido a Tenente-Coronel do Corpo do Estado-Maior do Exército por Decreto de 3 de Setembro de 1879, quando ainda se encontrava na América do Sul.

Apresentou-se no Ministério da Guerra em 17 de Março de 1880 por ter cessado a Comissão em que se achava no Ministério dos Negócios Estrangeiros (Ordem do Exército, N.º 7 de 3 de Abril).

Foi nomeado Coronel do Corpo do Estado-Maior, por Decreto de 11 de Junho de 1884.

Em 1885 foi nomeado Chefe do Estado-Maior da 4.ª Divisão Militar, por Decreto de 9 de Setembro.

Em 1893 assumiu a direcção interina da Escola do Exército, por Decreto de 2 de Março de 1893, e a de Comandante interino do Corpo do Estado-Maior do Exército, por Decreto de 12 de Maio.

Foi promovido a General de Brigada por Decreto de 30 de Junho de 1893 e a General de Divisão por Decreto de 13 de Maio de 1896.

Naquele mesmo ano de 1893, foi nomeado Comandante da Escola do Exército (Ordem do Exército, N.º 25). Esta nomeação, depois de ter assegurado por pouco tempo a direcção interina daquele estabelecimento de ensino militar, era justificada pelo profundo conhecimento que S. Januário tinha já daquele estabelecimento de ensino, em virtude de ter sido Vogal da Comissão encarregada de estudar e propor plano de reorganização da Escola do Exército, conforme a Ordem do Exército N.º 11, de 16 de Abril de 1877. Em virtude dos resultados alcançados, foi “Louvado pelo zelo e inteligência com que se desempenhou do serviço que lhe foi concedido” (Ordem do Exército N.º 11, de 8 de Junho de 1879), o que acrescia a favor da sua autoridade aquando da tomada de posse do comando daquela Escola, anos volvidos.

No salão nobre daquele estabelecimento de ensino militar encontra-se exposto o seu retrato a óleo (Fig. 13). Prova do prestígio que granjeou entre os alunos e professores daquele estabelecimento de ensino militar é o discurso proferido por um dos lentes (COSTA, 1896) aquando da abertura do ano lectivo de 1896/1897, em bonita encadernação feita propositadamente para lhe ser oferecida (Fig. 14).





Ao ser nomeado Comandante da 1.ª Divisão Militar (pela Ordem do Exército N.º 6 de 1897), foi exonerado de Comandante da Escola do Exército, a actual Academia Militar.

Por fim, já com mais de 70 anos, foi exonerado do cargo de Presidente da Comissão encarregada de estudar e propor as providências mais adequadas à reorganização das forças ultramarinas (Decreto de 7 de Junho de 1898), tendo sido louvado pela forma como dirigiu os trabalhos daquela comissão, passando à reserva (ou, como então se dizia, ao exército auxiliar). O garbo militar, apesar de contar já então mais de 70 anos e se encontrar doente mantinha-se inalterado, como se evidencia em foto tirada na sua quinta da Portela, em Abril de 1900, com uniforme de General de Divisão e todas as insígnias das suas muitas condecorações (Fig. 15).



A participação do Conde de São Januário, em Lisboa na recepção a Mouzinho de Albuquerque, a 14 de Dezembro de 1897, ladeando o herói africano (Fig. 16), dando a direita ao homenageado, aquando do seu desembarque no Cais do Sodré, na qualidade de Comandante da 1.ª Divisão Militar, foi o corolário da sua vida pública, que desde sempre se confundiu com a vida militar, em prol do serviço do País e da defesa dos interesses nacionais.



Por esta breve síntese se pode aquilatar a notável carreira de Januário Correia de Almeida e os extraordinários serviços prestados ao país, como militar, engenheiro, diplomata e administrador. Estes e outros atributos serão evidenciados nos capítulos seguintes.


4 - O despertar para a causa pública: a missão no arquipélago de Cabo Verde (1857-1861)

A preparação técnico-científica de S. Januário como engenheiro militar cedo foi posta ao serviço do País, fazendo parte da plêiade de militares que no século XIX abriram a Portugal os caminhos da modernidade.

Devem-se-lhe inúmeras infra-estruturas em diversas ilhas do arquipélago de Cabo Verde, para onde foi despachado a 22 de Dezembro de 1857 Director dos Serviços de Obras Públicas do Distrito de Cabo Verde, tanto a nível das estradas de macadame que mandou construir, em substituição das picadas quase intransitáveis, como em equipamentos portuários. É o caso do belo edifício da Alfândega do porto do Mindelo, construído entre 1858 e 1860, de excelente qualidade arquitectónica, com alvenarias de calcários cuidadosamente provenientes da Metrópole, construção que ainda hoje mantém toda a sua beleza (Fig. 17).


 

Com a sua nomeação interina como Governador de Cabo Verde, cargo que exerceu entre 8 de Agosto de 1860 e 1 de Abril de 1861 em acumulação com o de Director das Obras Públicas do arquipélago teve o ensejo de pôr em prática um ambicioso plano de melhoramentos, que envolveu a construção, na Cidade da Praia, de importantes estruturas portuárias recorrendo a um imposto de 3% sobre o valor de todas as mercadorias entradas e saídas. Teve ensejo de publicar folheto (ALMEIDA, 1860) (Fig. 18), onde descreveu o projecto por si elaborado e cuja concretização lhe coube também assegurar.
 

 

………a invulgar energia e competência técnica e administrativa demonstradas, auguravam-lhe mais altos cargos, e abriram-lhe as portas da Política que viria a abraçar fugazmente, através do exercício de diversos cargos políticos, adiante caracterizados.

Tendo percorrido todas as ilhas do arquipélago, realizou também o reconhecimento do litoral da Guiné, realizando reparações, entre 1858 e 1860 na fortaleza de São José de Amura. Data dessa época o livro “Um mez na Guiné” (ALMEIDA, 1859), interessantíssimo relato de viagens recheado de observações recolhidas em primeira mão, o qual foi publicado em Lisboa, para cuja redacção deve ter aproveitado os curtos tempos livres no arquipélago (Fig. 19). Pelo seu inegável interesse documental, geográfico e sociológico, considerou-se importante apresentar um resumo desenvolvido das 68 páginas que integram a versão original que, por estranho que pareça, nunca conheceu reimpressão.


 

…………………….……no final da obra, que é muito informativa e constitui um retrato quase desconhecido, vívido e rigoroso da Guiné portuguesa de meados dos século XIX, Januário Correia de Almeida procurou indicar algumas medidas que o Governo deveria tomar para o progresso da Colónia. As considerações apresentadas evidenciam, apesar do curto mês em que permaneceu na Guiné, a sua invulgar capacidade para o diagnóstico das situações e a subsequente lucidez evidenciada pelas propostas de soluções a adoptar, característica do seu carácter que, muito mais tarde, teve oportunidade de desenvolver em proveito e defesa dos interesses do País.

Estas raras qualidades, já tão evidentes aquando da sua estada em Cabo Verde e na Guiné, com pouco mais de 30 anos, auguravam-lhe vida pública produtiva e auspiciosa.

 

5 - Uma afirmação de autoridade como Governador-Geral da Índia Portuguesa

A atenção particular às condições de vida das populações, a sua sensibilidade para a causa pública e a sua competência técnica e militar já claramente demonstradas nas missões de que fora incumbido anteriormente, explicam que tenha sido nomeado Governador-Geral da Índia Portuguesa por carta régia de 9 de Fevereiro de 1870, tendo chegado a Goa a 4 de Maio do mesmo ano e tomado posse a 7 de Maio de 1870. Assegurou aquele cargo até finais de 1871, já depois de debelada grave revolta militar que será adiante pormenorizadamente tratada. Data dessa época a litografia de corpo inteiro (Fig. 20), que se soma ao retrato pintado sobre a tábua existente na sala dos Governadores, no Palácio do Governo, em Nova-Goa (Fig. 21), já reproduzida anteriormente (Sá, 1999).

 


 


Parece difícil ter feito mais em menos tempo, desde a revolta de Volvoy, que estalou em 1870, movimento insurreccional provocado pelo descontentamento da aplicação de medidas reformistas do exército local, com a agravante da existência preocupante de um generalizado estado de insegurança devido à presença de salteadores organizados que então infestavam aqueles domínios.

A revolta de Volvoy foi resolvida à custa de amplas concessões que o seu antecessor no cargo de Governador-Geral entendeu que não podiam deixar de ser feitas. Mas as dificuldades persistiram.

Enquanto Governador-Geral, não deixou por um só momento de se dedicar totalmente àquela preocupante situação, a ponto de ter mandado imprimir em Bombaim opúsculo da mais alta importância para a compreensão da revolta que viria a estalar em 1871 e da forma como a conseguiu debelar (S. JANUÁRIO, 1872) (Fig. 22); ali se publicam também documentos oficiais que então emitiu………..


………..De tal forma foi a revolta subjugada, com prudência e determinação, que a força expedicionária enviada da Metrópole, sob o comando do Infante D. Augusto já não foi necessária, tal como também não foi necessária a força inglesa que foi posta à sua disposição, e que ele, aliás, taxativamente recusou publicamente (por texto publicado no Times of Índia), pelo precedente que tal criaria para a soberania portuguesa.

Como administrador, deve-se-lhe a reforma da moeda em circulação, fazendo cunhar nova moeda, bem como a introdução do selo postal, por portaria de 12 de Agosto de 1871, sendo clara a sua intenção de promover o progresso do território sob administração portuguesa, tal como tinha feito em Cabo Verde, neste caso tomando como exemplo a Índia Inglesa de então.

 

6 - Prudência e firmeza como Governador-Geral de Macau e Timor

Na sequência imediata da bem-sucedida missão como Governador-Geral da Índia, o já então Visconde de São Januário é nomeado Governador-Geral de Macau e Timor, cargo que desempenhou entre 23 de Março de 1872 e 7 de Dezembro de 1874. O seu retrato figura no Palácio do Governo, a par dos de outros Governadores de Macau (Fig. 23).


Mais uma vez, vieram ao de cima as suas invulgares qualidades militares e diplomáticas, como organizador e administrador: dominou a actividade de piratas chineses que assolavam recorrentemente a região, mesmo na imediata vizinhança do porto da cidade, e conseguiu dos chineses o reconhecimento dos direitos dos Portugueses sobre a península de Hai-Nan, em documento datado de 1874 (S. JANUÁRIO, 1875). Este documento, aquando da implantação da República, foi subtraído do Paço de Vila Viçosa, e depois adquirido por um comerciante do Porto, que o ofereceu ao então Presidente do Conselho, Doutor Oliveira Salazar, desconhecendo-se actualmente o seu paradeiro (Fig. 24). 


Embora detenha evidente interesse por constituir uma prova documental do reconhecimento dos direitos territoriais dos portugueses naquelas paragens tratar-se-á mais de uma manifestação de simpatia e de agradecimento do que propriamente de um tratado, com reconhecimento formal daquela cedência. Já no respeitante à delimitação da fronteira marítima entre a China e Macau, as conversações efectuadas com o enviado chinês deram origem a um compromisso verbal, estabelecido em 1872, o qual, no entender de S. Januário, não se justificaria ficar por escrito (PINTO, 2013, p. 255).

Com base nos dois relatórios que fez publicar e que serão adiante referidos em pormenor, verifica-se que, nos pouco mais de dois anos e meio que esteve à frente do governo de Macau tomou a iniciativa da concretização de assinalável número de melhoramentos públicos. Promoveu a construção do Quartel e do Hospital militar, além de equipamentos portuários, bem como a dotação dos fortes com peças de artilharia de grande calibre, salvando o território de um ataque de surpresa. A caracterização destas duas poderosas armas será abaixo apresentada, a partir do próprio Relatório de S. Januário.

 ……..O seu nome ficou indelevelmente associado ao território, pelo respeito que incutia em todos, mesmo nos seus poderosos vizinhos, como expressivamente se regista no monumental Hospital militar que fundou (Fig. 25), inaugurado a 6 de Janeiro de 1874 entretanto substituído por outro grande edifício inaugurado em 1894, a que se sucedeu um terceiro hospital inaugurado em Março de 1974. 

A construção desta grande unidade hospitalar justificou uma emissão filatélica com dois selos, um reproduzindo o Visconde em grande uniforme, à época em que era Governador, inspirado na litografia anteriormente reproduzida de 1870, apresentando o outro selo, o próprio hospital (Fig. 26). A manutenção do seu nome, mesmo depois de feita a passagem da administração do território para a China, é expressiva do prestígio que o seu nome granjeou entre a população local, ainda hoje reconhecido e respeitado…………



7 – Uma missão de alto risco como Ministro Plenipotenciário no Reino de Sião

A fase em que desempenhou as funções de Governador de Macau coincidiu com o exercício das funções de Ministro Plenipotenciário de Portugal junto das Cortes da China, Japão e Sião (reino que abarcou territórios da actual Tailândia e do Cambodja), correspondeu a uma das mais notáveis da carreira do então Visconde de São Januário.

Importa referir que S. Januário terá visitado o reino de Sião pela primeira vez em 1873. Tal visita ter-se-á de facto efectuado em Novembro daquele ano, depois de obtida a respectiva autorização.

Mais tarde, já no seu périplo de regresso a Portugal, em inícios de 1875, finda a sua missão como Governador de Macau em finais de 1874, voltou de novo para a apresentação de credenciais. A 9 de Dezembro desse ano remete carta ao Ministro e Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, com timbre da legação de Portugal na China, japão e Sião (Arquivo Histórico Diplomático, Ministério dos Negócios Estrangeiros, documento 640, caixa 950), participando que terá de se ausentar de Macau, em missão do seu cargo de Enviado Extraordinário e Ministro Plenipotenciário de Sua Majestade Fidelíssima visitando a corte de Bangkok e seguindo depois para o Reino. Aquando da sua chegada, encontrou o país mergulhado numa profunda crise dinástica. Monsenhor Manuel Teixeira dá uma explicação detalhada do ambiente de grande tensão que ali se vivia aquando da segunda visita de S. Januário (TEIXEIRA, 1976). Foi então protagonista de decisiva intervenção na luta que então estava a ponto de se tornar guerra civil: a coroa do reino era disputada pelo monarca legítimo e o ex-regente, que anteriormente governara o reino na menoridade do monarca e a quem os representantes diplomáticos das potências ocidentais tendiam a conceder o seu apoio. Foi então que São Januário interveio, convencendo estes últimos de que tal estratégia constituía um erro, por corresponder ao caminho mais rápido para a perda de influência das ditas potências na região.

O diferendo foi resolvido a favor do Rei legítimo, Rama V Chulalongkon, quinto soberano da Dinastia Chakri, que reinou de 1868, ou 1873, contando os cinco anos de regência do seu opositor afastado em 1874/1875, a 1910. Em agradecimento pelo notável serviço prestado, o Rei confirmado no Trono agraciou o Português com a Grã-Cruz da Ordem da Coroa de Sião, a 14 de Janeiro de 1875, em diploma iluminado, sobre pergaminho, por ele mesmo assinado (Fig. 28).


O reconhecimento do Rei foi ao ponto de escrever uma carta pessoal ao Visconde de São Januário, em Inglês, que constituía a língua oficial para relações diplomáticas, num esforço para modernização do País introduzido anteriormente, agradecendo-lhe a intervenção e convidando o Rei de Portugal a visitar o seu Reino, datada de 1 de Abril de 1875 do palácio Real de Bangkok, a qual pelo seu interesse se reproduz (Fig. 29)…………..


………A missão de Januário Correia de Almeida no Sudeste Asiático teve também um cunho científico, resultante do seu interesse pela Arqueologia, mais tarde plenamente reafirmado aquando da sua Missão às Repúblicas sul-americanas. No boletim da Associação dos Arqueólogos Portugueses, da qual já então era sócio, relativo a 1876, iniciou a publicação de um extenso artigo sobre a Arquitectura Khmer, que se prolongou por 1877 (S. JANUÁRIO, 1876, 1877), com base na visita que fez a Angkor, cujos templos reproduz (Fig. 30).

 


Neste artigo analisa detalhadamente os materiais de construção utilizados, descrevendo as técnicas construtivas seguidas na edificação dos muros, torres, calçadas, colunas, abóbadas, portas, tanques, pontes e terraços, bem como as suas características estruturais e arquitectónicas, incluindo a disposição geral dos edifícios e a respectiva descrição.

………..Em suma, a valia das investigações desenvolvidas no antigo Reino de Sião, ao visitar e caracterizar os notáveis templos ali existentes, cujos resultados publicou depois em Portugal (S. JANUÁRIO, 1876/1877) revelaram-se também na importante comunicação que apresentou à Société Académique Indo-Chinoise, da qual for eleito Sócio Correspondente em 1880 (S. JANUÁRIO, 1883), cabendo o elogio do novo Académico a Eugène Gilbert (GILBERT, 1881).

 

 8 – No Império do Sol Nascente 

Se a sua acção junto das Cortes da China e do Sião foi notável, também junto da Corte do Japão aquela se fez sentir, com a reorganização do serviço consular português, tendo-lhe valido a outorga da Grã-Cruz da Ordem do Sol Nascente, estabelecida pelo Império nipónico nesse mesmo ano de 1875. Na cidade de Nagasaqui, impressionou-se com uma ponte de cantaria de blocos graníticos, com dois arcos de volta inteira apoiados num pegão central, pelas semelhanças que tinha com tantas pontes da Metrópole, especialmente comuns na região norte, justamente designada pelos locais como “Ponte dos Portugueses”, pertencente à segunda metade do século XVI. Ao publicar sobre ela uma breve notícia, com minuciosa descrição, no Boletim da Associação dos Arqueólogos Portugueses, declarou: “É indefinível o efeito, que, em nossa visita a Nagasaki, em mim e em meus companheiros, produziu a vista d’esta singela construção! (…). Era a ponte da villa dos Arcos de Val de Vez, cercada dos ligeiros chalets japonezes, e da extravagante architectura das capellas Kamis e dos pagodes budhistas!” (S. JANUÁRIO, 1877, p. 50).

***  ***  ***

Aquando do regresso do Oriente, acompanhou-o um conjunto de peças orientais que expôs, em 1875, na sua casa da Rua do Alecrim. Procurava, assim, chamar a atenção da sociedade lisboeta do seu tempo para múltiplas realidades culturais que esta desconhecia quase totalmente, apesar das centenas de anos de contactos com culturas do Extremo-Oriente (Sudeste Asiático, China e Japão). Esta exposição deu brado na sociedade lisboeta de então, tendo sido anunciada no “Diário de Notícias” de 29 de Novembro de 1875. De facto, quarenta anos depois, o mesmo jornal, na secção de efemérides “Há quarenta anos”, publicava a seguinte notícia: “Visconde de S. Januário – São muito curiosos e de subido merecimento artístico os objectos da China, Japão e Sião que o Visconde de S. Januário trouxe daquelas regiões. Em casa do illustre e antigo governador de Macau podem admirar-se raros e belos esmaltes em cobre, vasos de bronze admiravelmente cinzelados, finíssimos xarões, porcelanas de subido valor, filigranas de ouro, prata e marfim, e infinidade de objectos muito apreciados na Europa. As salas estão elegantíssimas, todos os objectos dispostos com arte e gosto, alguns dos quais seriam dignos de figurar no mais selecto museu. Teem sido muito visitadas por cavalheiros e damas as salas do sr. Visconde de S. Januário, na sua residência na rua do Alecrim.”

Do vasto acervo trazido, muitos lotes conservou pessoalmente, passando de geração em geração da sua Família até à actualidade, incluindo objectos pessoais, como uma colecção de facas de marfim para papel, de diversas origens: China, Índia e Sudeste asiático (Fig. 31). 

Dois anos volvidos, a maioria daquele manancial foi leiloado em Lisboa, encontrando-se os lotes devidamente descritos em catálogo então impresso (S. JANUÁRIO & MESNIER, 1877) (Fig. 32).

O Catálogo inventariou 1809 peças dadas como provenientes do Japão, China, India, Ceilão, Coreia, Sião e Egipto, num total de 1809 peças de madeira, couro, laca dourada, pintura chinesas, estatuetas, vasos diversos, jarras de porcelana, dentes de elefante e várias peças de marfim.

Esta realidade corporiza atitude que se compreende, porque os militares em missão no Oriente tinham dificuldade em trazer divisas, vendo-se obrigados, antes do regresso, a comprar bens de vária ordem, para capitalizarem as economias reunidas.

Outras peças, cerca de 650, foram colocadas em depósito no Museu Colonial de Lisboa, então instalado na Rua do Arsenal, em 1878, nas vésperas da sua partida para a América do Sul."


9 – O 1.º Presidente da Sociedade de Geografia de Lisboa (a publicar em breve)

10 – Viajante, diplomata, arqueólogo e naturalista: a missão como Ministro Plenipotenciário às repúblicas sul-americanas em 1878/1879 

11 – Colaboração com a Academia das Ciências de Lisboa    

12 – Actuação na Associação dos Arqueólogos Portugueses     

13 – Intervenção política     

14 – Servidor da cultura e defensor da cidadania     

15 – O fim de uma vida dedicada ao serviço do País    

 









domingo, 25 de abril de 2021

O Abril dos Bilderberg

 


«Na manhã do dia 25 de Abril de 1974, quando as chaimites chegam ao Terreiro do Paço lideradas por Salgueiro Maia, deparam-se com navios de guerra no estuário do Tejo, sobre os quais se desconhecia a lealdade. Seriam fiéis ao regime marcelista? Ao movimento dos capitães? Ou a nenhum deles? Foi debaixo de tensão, depois de se aperceberem dos gigantes nas águas, que os "capitães de Abril" entraram pelo edifício pombalino para prender ministros fiéis ao regime - que conseguiram escapar por um esconderijo. Se os navios que estavam no Tejo (eram afinal contratorpedeiros e fragatas canadianas ao serviço da NATO) tivessem aberto fogo, tudo se poderia ter transformado numa carnificina e a revolução dos cravos teria sido, senão ineficaz, pelo menos mais sangrenta. Isto apesar de os capitães não estarem absolutamente desprotegidos, já que três batalhões de Vendas Novas ocuparam posições junto ao Cristo Rei, em Almada, com o objectivo de abater a tiro qualquer coluna que atravessasse a até aí designada Ponte Salazar ou qualquer navio que se revelasse hostil às forças revolucionárias. Mas
o que tem, afinal, Bilderberg a ver com isto?

Três dias antes do 25 de Abril, já Bilderberg estava na posse de informações de que o movimento dos capitães ia tentar um golpe de Estado em Portugal. Decidiu nada fazer, embora tivesse poder para isso, via NATO. Esta informação é, inclusivamente, dada como válida pelo Centro de Documentação 25 de Abril, que integra este pormenor nos detalhes do dia da revolução.

 

Foi o jornalista Martinho Simões que, em 1978, no prefácio do livro A destruição da lealdade: um estudo da ameaça da propaganda de Anthony Burton, (Abril, 1978), abordou pela primeira vez o assunto. Escreveu Martinho Simões:

"Na reunião de 1974, realizada de 19 a 21 de Abril em Megève, participaram Nelson Rockefeller, governador do Estado de Nova Iorque; Frederick Det, secretário americano para o Comércio; general A. Goodpaster, comandante das Forças Aliadas na Europa; Denis Healey, ministro das Finanças inglês; Joseph Luns, secretário-geral da NATO; Richard Foren, presidente da General Electric para a Europa; Helmut Schmidt, na época ministro das Finanças alemão; Giovanni Agnelli, presidente da Fiat".

No fundo, o jornalista elenca algumas das pessoas mais relevantes à época, no mundo político e empresarial, que participaram no evento de 1974, onde não havia portugueses. Além dos referidos, ainda marcaram presença figuras como Gerhard Schröder, mais tarde chanceler alemão, ou o banqueiro e filho de Edmond Rothschild, Edmond Adolphe Rothschild.


    Apesar de não haver qualquer presença lusa, alguns responsáveis norte-americanos (eram 22 neste encontro) e da NATO tinham várias informações que chegaram por via do embaixador norte-americano em Lisboa, Stuart Nash Scott. São raros os encontros de Bilderberg ao longo da sua história em que o secretário-geral da NATO não está presente. E 1974 não foi excepção. O holandês Joseph Luns - que havia assinado com o seu punho o Tratado de Roma em nome da Holanda, em 1957 - foi uma das figuras de maior destaque presentes na reunião. Enquanto diplomata, Luns estivera durante a II Guerra Mundial em…Portugal.

O jornalista Martinho Simões acredita que "a presença de Luns terá determinado o comportamento da NATO no desenrolar do golpe militar de Lisboa". E recorda como, três dias depois do encontro, a NATO foi conivente com o golpe:

"No dia 24 de Abril, diversas unidades da NATO chegaram ao porto de Lisboa. Elas deveriam tomar parte nas manobras aeronavais Dawn Patrol, programadas para o dia 26, no Mediterrâneo. Mas poucas horas antes de ser oficialmente anunciada a mudança do regime português, as manobras foram canceladas e os navios de guerra portugueses puderam regressar a Lisboa e anunciar a sua adesão ao MFA (Movimento das Forças Armadas”.

E continua:

"Não será demais pensar que a presença das unidades da NATO em Lisboa tinha como objectivo servir de elemento de dissuasão contra qualquer tentativa 'contra-revolucionária' dos generais".

O Centro de Documentação 25 de Abril interpreta os acontecimentos dizendo que, no encontro de Bilderberg, realizado em Megève, França, "ter-se-á tomado conhecimento da iminência de alterações políticas em Portugal e decidido não contrariar a evolução dos acontecimentos, crendo que uma mudança política poderia conduzir ao liberalismo económico". O jornalista Martinho Simões conclui dizendo:

"Nas suas linhas gerais, portanto, o golpe de 25 de Abril é, por um lado, tecnicamente preparado por duas centenas de capitães; por outro lado, é aceite e facilitado pela conivência do capitalismo anónimo [ler: Bilderberg”.

O Clube viria, no entanto, a ficar desiludido com o rumo que os acontecimentos tomaram mais tarde:

"Em sua evolução posterior, foram os capitães 'vermelhos' e não os moderados que se apoderaram do poder, desse modo frustrando as expectativas do Clube de Bilderberg”.

Rui Pedro Antunes («Os Planos Bilderberg para Portugal»).

Pormenores de uma revolução que nunca aconteceu, o que aconteceu na realidade foi um golpe corporativo que serviu para ocultar a maior traição da história à Nação portuguesa, uma mentira, mentira essa que após 46 anos muitos ainda desconhecem, uns por deformação mental, neste caso os perfeitos imbecis ditos de esquerda democrática e por outro lado aqueles que continuam a aceitar tudo passivamente a coberto da sua ignorância!!!

Enfim, e assim escavacaram um império, mataram um país e escravizaram uma nação!

Quem sou eu para julgar, pelos vistos continuam a gostar e a aplaudir tudo aquilo que não compreendem, um povo ignorante nunca sairá das trevas, será eternamente um povo escravo, um povo à mercê de políticos e interesses obscuros.

Alexandre Sarmento

Setembro 03, 2020 

sábado, 24 de abril de 2021

A carta do Coronel - Operacional do 25 de Abril (cópia da carta enviada aos membros dos grupos parlamentares)


Excelentíssimos e ilustríssimos membros dos Grupos Parlamentares com assento na Assembleia da República Portuguesa.

Eu, abaixo-assinado, Américo José Guimarães Fernandes Henriques, Coronel de Infantaria “Comando” na situação de Reforma, venho através desta carta mostrar a todas Vossas Excelências o quanto a vossa prestação ao serviço do Povo Português, de quem sois os mais legítimos representantes, me tem impressionado, comovido e motivado.

Operacional do 25 de Abril de 1974, conspirador no planeamento do Movimento das Forças Armadas (foi em minha casa que o então Major Otelo Saraiva de Carvalho fez a ultima reunião antes da Revolução) participante nas acções comandadas pelo então Major Jaime Neves, dei ao 25 de Abril o melhor de mim próprio, a minha alma de Português, Patriota e Militar, sem olhar ao risco da minha vida, da minha família e da minha carreira.

Sabia a razão da minha revolta, abraçava com imensa fé a minha escolha e aceitava plenamente as consequências dos meus actos.

Conscientemente, arriscava tudo para poder devolver ao Povo Português o direito de decidir do seu destino, a par do direito de se pronunciar livremente sobre a continuação da nossa secular presença em Africa e da sua participação numa obra política magnífica, que levasse, de uma forma pacífica e nobremente aceite, os mais ricos a serem um bocadinho menos ricos, para que os mais pobres fossem um “bocadão” menos pobres.

Passaram quarenta anos sobre aquelas duas horas da tarde do dia 24 de Abril de 1974, em que eu, então um jovem Tenente chegado de Moçambique, iniciei a minha participação no Movimento, enquadrado num pequeno grupo de Oficiais instrutores da Academia Militar, todos eles tão devotadamente empenhados naquela Missão Histórica quanto eu estava, todos eles tão romanticamente crentes como eu era, todos eles tão Portugueses e tão Patriotas quanto eu sou.

E passaram quarenta anos em que praticamente tudo aquilo que me levou a sonhar e a participar, a arriscar e a sofrer (fui preso no 11 de Março de 1975 como um perigoso fascista, tive a casa assaltada e a família roubada na reforma agrária, vi os meus tios e primos retornados de Africa... participei no 25 de Novembro) praticamente tudo, TUDO, miseravelmente traído, corrompido, destroçado, pela incompetência, pela leviandade, pela ausência de valores e pela maldade do bando de hipócritas e de salafrários a quem, inocentemente (mas nem todos...) abrimos as Portas de Portugal.

E passaram quarenta anos em que a Democracia Portuguesa evoluiu para a “partidocracia”, para aquela feira de vaidades manhosa e corrupta a que o Senhor D. Pedro V chamava (e bem!!!) “canalhocracia”, e onde o Poder Politico, sem perguntar NADA a NINGUÉM, nos foi metendo na “alhada” mais vertiginosa da nossa História, dessa mesma História que foi negada ao conhecimento de duas gerações de Portugueses por decisão desse mesmo Poder Politico, dessa mesma História que hoje vê Portugal tratado abaixo de cão, insultado na praça pública, devedor de chapéu na mão e ultrajado, miseravelmente ultrajado dentro da própria casa, por um bando de lacaios de uma potência estrangeira.

 

Excelentíssimos Senhores,

Ciente de que o meu grito de revolta vos vai passar alegremente ao lado, e de que a vossa preocupação constante na condução perfeita e justa dos destinos da Pátria Portuguesa não vos deixará um minuto sequer para meditar sobre a revolta deste Militar reformado que vos importuna o trabalho, apenas vos peço que anoteis na vossa agenda de assuntos marginais que um dos homens que arriscou a vida, a família e a carreira, para vos ter sentados nas cadeiras do Poder e nas bancadas do Parlamento, está muito zangado com todas Vossas Excelências, e só reza a Deus pelo dia em que (de forma pacifica é claro!!!!) veja Vossa Excelências pelas costas, e a prestar contas à Nação Portuguesa.

Atentamente e com a devida consideração a) Américo José Guimarães Fernandes Henriques
Coronel de Infantaria (Cmd) Reformado

(Publicado em 28/10/2013)


 

terça-feira, 20 de abril de 2021

A Guerra do Ultramar...O Esforço de Guerra Português num Estudo de John Cann, financiado pelo Kings College de Londres.

 1. Especialistas ingleses e norte-americanos estudaram comparativamente o esforço das Nações envolvidas em vários conflitos em simultâneo, principalmente no que respeita à gestão desses mesmos conflitos, nos campos da logística geral, do pessoal, das economias que os suportam e dos resultados obtidos.

Um deles, o americano John P. Cann, aquele que mais escreveu sobre o esforço de guerra português num estudo financiado pelo Kings College de Londres, chegou a várias conclusões.

Assim chegou à conclusão que em todo o Mundo só havia 2 Países que mantiveram 3 Teatros de Operações de Guerra em simultâneo: 

A poderosa Grã-Bretanha, com frentes na Malásia (a 9.300 Kms de 1948 a 1960 - 12 anos); no Quénia (a 5.700 Kms de 1952 a 1956 - 4 anos); e em Chipre (a 3.000 Kms de 1954 a 1959 – 5 anos), e o pequenino PORTUGAL, com frentes na Guiné (a 3.400 Kms), Angola (a 7.300 Kms) e Moçambique (a 10.300 Kms) de 1961 a 1974 (13 anos seguidos).  

Estes especialistas chegaram à conclusão que PORTUGAL dadas as premissas económicas, os seus recursos, a sua pequenez, as dificuldades logísticas para abastecer as 3 frentes, bem como a sua distância, a vastidão dos territórios em causa, e a enormidade das suas fronteiras, foi aquele que melhores resultados obteve.

Consideraram por último, que as performances obtidas por PORTUGAL, se devem sobretudo à capacidade de adaptação e sofrimento dos seus recursos humanos, à sobrecarga que foi possível exigir a um grupo reduzido de quadros dos 3 Ramos das Forças Armadas, comissão atrás de comissão, com intervalos exíguos de recuperação física e psicológica e às centenas de milhares de jovens que durante 13 anos combaterem naqueles territórios. Isto são observadores internacionais a afirmá-lo.

Estes homens que serviram durante 13 anos na Guerra do Ultramar, nos 3 Teatros de Operações, só pelo facto de aguentarem este esforço sobre humano que se reflecte necessariamente em debilidades de saúde precoces, mazelas para toda a vida, invalidez total ou parcial, e morte, tudo ao serviço da Pátria, merecem o reconhecimento da Nação, que jamais lhes foi dado.

2. Em todo o mundo civilizado, e não só em Países Ricos, cidadãos protagonistas dos grandes conflitos e catástrofes com eles relacionados, vencedores ou vencidos, receberam e recebem por parte dos seus Governos, tratamentos diferenciados do comum dos cidadãos, sobretudo nos capítulos sociais da assistência na doença, na educação, na velhice, e na morte, como preito de homenagem da Nação àqueles que lutaram pela Pátria, com exposição da própria vida.

Por todo o Mundo se veneram, recordam, imortalizam e se homenageiam os soldados que combateram em teatros de guerras, sejam eles vencedores ou vencidos. São às centenas os memoriais, as estátuas e os cemitérios onde repousam os que morreram em combate. Seria fastidioso citar todas as regiões planetárias onde isso acontece. Muitos dos nossos mortos foram abandonados nos territórios africanos, pelos sucessivos governos pós 25 de Abril e encontram-se sepultados aqui e ali como se de animais se tratassem.

Em PORTUGAL - Somos os únicos que não seguem os exemplos generalizados do tratamento diferenciado aos que serviram a Pátria em combate. E pior ainda. O cúmulo dos cúmulos. Quem combateu é censurado, vilipendiado e ostracizado. Pelo contrário os traidores/desertores, muitos dos quais fugiram e foram viver com mordomias de príncipes e outros que ainda hoje pululam no sistema político vigente, apelavam à morte dos soldados portugueses.

 


 

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

IRMANDADES SECRETAS EM PORTUGAL

Irmandades secretas e perversas


Uma das mais poderosas sociedades de advogados nacional, a PLMJ, foi recentemente investigada no caso da “Máfia do Sangue”. Um dos seus sócios foi mesmo constituído arguido. Dois dos seus mais proeminentes representantes são José Miguel Júdice e Nuno Morais Sarmento, ambos advogados, políticos e comentadores televisivos, na RTP e na TVI. Nos seus programas semanais, ambos fugiram ao tema escaldante da corrupção nos negócios do sangue, com a cumplicidade dos jornalistas que, embevecidos, os entrevistavam.

Este é um modelo que representa o “modus faciendi” das sociedades de advogados. Usam a sua posição de comentadores nas televisões a seu bel-prazer para defender os interesses dos seus clientes e camuflar a informação negativa. Exemplos de personalidades de tripla face (políticos, comentadores e advogados) são muitos. Temos, assim, António Vitorino, sócio da firma “Cuatrecasas” ou Marques Mendes, da toda-poderosa “Abreu Advogados”.

Sociedade igualmente relevante no panorama português é a “Morais Leitão, Galvão Teles Soares da Silva e Associados”. Lança jovens na política e no Direito como os ex-governantes Assunção Cristas, Adolfo Mesquita Nunes ou Paulo Núncio. Ou o actual advogado/deputado do CDS Francisco Mendes da Silva. Os interesses dos seus clientes são defendidos no comentário político televisivo na SIC por Lobo Xavier que comenta toda a actividade política e económica sem que os telespectadores se apercebam das suas ligações ao Grupo Mota-Engil, ao BPI e a outros tantos interesses.

É também destas sociedades de causídicos que sai a legislação que mais prejudica os portugueses, como a das ruinosas parcerias público-privadas, elaborada na “Jardim, Sampaio, Magalhães e Silva”, a que dão corpo e nome os socialistas Vera Jardim e Jorge Sampaio. Vera Jardim, que debate na rádio com Morais Sarmento, da já citada PLMJ. E até os interesses estrangeiros mais obscuros são representados por estas sociedades. A “Uria Menendez” vem defendendo, através do todo-poderoso Daniel Proença de Carvalho os interesses de Eduardo dos Santos, Ricardo Salgado e Sócrates. Proença faz comentário político na rádio sem revelar quem serve. Preside à Administração do “Jornal de Notícias” do "Diário de Noticias" e pode assim censurar as vozes incómodas aos negócios dos seus clientes.

As sociedades de advogados são, em Portugal, as irmandades perversas do regime, as verdadeiras sociedades secretas. Fazem Leis, dominam a política, condicionam a comunicação social. E os seus membros actuam disfarçados.


Paulo Morais


segunda-feira, 14 de setembro de 2020

“A herança de 18 anos de governação do PS”

Uma visão lúcida de um antigo dirigente do PS que qualifica as governações socialistas dos últimos vinte anos, como incompetentes, nepotistas e extremamente corruptas, governando apenas para os interesses que lhes convêm e pouco lhes importando o progresso do país e os portugueses. O homem sabe bem daquilo que fala, conhece muito bem aquilo por dentro.

“Alguns dos leitores do meu texto da semana passada, poderão certamente responder que, por alguma razão, o PS continua no poder, depois dos últimos 18 anos que tratei, que tem um nível de apoio nas sondagens invejável e que provavelmente assim continuará nos próximos anos. É verdade, mas é também e razão deste novo texto.

A primeira razão são as circunstâncias em que o PS chegou e se manteve ao poder, depois de quatro anos em Passos Coelho, a braços com a herança trágica de José Sócrates, assumiu que a sua missão principal, porventura a única, seria recuperar a credibilidade internacional e, sem grande experiência, ou interesse pessoal na pequena propaganda política, enveredou pela penalização da classe média e por um discurso de alguma insensibilidade geracional, humana e social. Apesar de ter tentado poupar os mais pobres.

Depois outra circunstância, a de depois de quarenta anos de oposição sistemática, o PCP se ter deixado enredar na geringonça, com a ideia que poderia avançar com algumas das suas prometidas conquistas, o que na prática conseguiu, ainda que através de um modelo económico insustentável e de um futuro eleitoral muito pouco promissor. Para o Bloco de Esquerda, a ambição dos dirigentes era o acesso ao poder por razões políticas, mas também de ambição pessoal e o desejo de ganhar eleitoralmente ao PCP.

Nada disto teve a ver com o futuro de Portugal, ou com a consciência de que não existe, a médio prazo, melhor protecção social sem melhor economia, questão que nos conduz ao presente.

Com a crise deixada por José Sócrates e a gestão política pouco hábil de Pedro Passos Coelho, os portugueses, principalmente da classe média, apanharam um grande susto, perderam rendimentos, passaram a ver o futuro com medo de não poderem manter o seu nível de vida e, apesar de ainda terem medo do PS, razão porque o PS não ganhou as eleições, começaram todavia a ser sensíveis a uma inversão das políticas que os assustavam e às promessas de António Costa, muito facilitadas pelo novo ciclo de crescimento das economias europeias e mundiais e do crescimento do turismo, além da nova política de apoio financeiro do Banco Central Europeu.

Além disso, a chegada próximo do poder do PCP e do Bloco de Esquerda, criou a ilusão de uma grande aliança de esquerda, com efeitos parlamentares efectivos e a criação de um ambiente de grande estabilidade, para o que muito contribuiu a imagem populista do Presidente da República.

Não menos importante, temos a relativa inocência do PSD de Rui Rio, que acredita poder servir Portugal ajudando o PS a governar melhor, o que obviamente não é possível, dado que há muito o PS perdeu de vista o interesse nacional para privilegiar os negócios que favorecem alguns dos seus aliados e financiadores, situação bem servida através da ilusão de algumas concessões à esquerda, destinadas a manter a geringonça viva e manter o poder.

Esta evolução teve como resultado amarrar o PCP e o Bloco de Esquerda às políticas e aos interesses do PS. Porque, como sabiamente foi dito, após as últimas eleições, por Augusto Santos Silva, o PCP e o Bloco não podem entregar, com o seu voto no Parlamento, o poder à direita. Visão facilitada pelo facto do centro direita não mostrar ser uma alternativa convincente e aceitar demasiadamente os erros e os desmandos da governação do PS. Razões que estão na origem do crescimento excessivo, para Portugal, do novo partido Chega. Ou seja, a extrema-direita vai crescer em Portugal devido aos erros do Governo e da venalidade do PS, além da passividade do PSD.

Estas são algumas das circunstâncias porque muitos portugueses, habitualmente mais preocupados com o presente do que com o futuro, aceitam a governação de forma positiva, ainda que passiva. Nomeadamente no tema da corrupção, que é uma herança inegavelmente do PS, seja pelo número de anos que o partido está no poder sem nada fazer para a combater, seja porque tem sido nos turnos do PS que a corrupção mais tem crescido, seja porque os pequenos e grandes casos envolvem membros do PS, uns mais ilustres do que outros, mas todos a comer na gamela do Estado.

Claro que esta não é uma situação sustentável, seja porque a União Europeia não nos vai sustentar para todo o sempre, seja porque as maldades feitas por António Costa às empresas e à liberdade económica têm custos, seja, finalmente, porque a corrupção vai corroendo o processo democrático. Apesar disso, não vejo que uma nova ditadura esteja no horizonte e não duvido que António Costa possa continuar a enrolar os problemas do País por mais algum tempo através da propaganda política e das circunstâncias descritas. Todavia não tenho grande dúvida de que o acordar dos portugueses vai ser muito doloroso, certamente mais doloroso do que no tempo do último pedido de ajuda internacional e da Troika e vejo à nossa frente alguns anos de grande convulsão social, bem como o crescente atraso de Portugal relativamente a todos os outros países da União Europeia.

Talvez que nessa nova circunstância o PCP, o Bloco de Esquerda e alguns extremistas que andam por aí, tentem fazer o que não conseguiram fazer a seguir ao 25 de Abril, mas isso já não é uma previsão, para ser apenas futurologia”.

 

21-08-2020

Henrique Neto

Diário de Coimbra



 


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